Excerpt for O Califado: um suspense pós-apocalíptico (Portuguese Edition) by , available in its entirety at Smashwords

O Califado

Um suspense pós-apocalíptico

por

Anna Erishkigal

.

Português do Brasil

.

Traduzido por Filipe de Lima Silva

Copyright 2012, 2017

Todos os direitos reservados



Sinopse

Eisa McCarthy vive na Cidade Califado sob o controle do grupo radical Islâmico, o Ghuraba. Sete anos atrás, o General Mohammad bin-Rasulullah derrotou os Estados Unidos numa traição impiedosa e estabeleceu seu Califado mundial nas ruinas de Washington, D.C. O santo líder supremo do Ghuraba, o Abu al-Ghuraba, alega que o pai de Eisa lhe deu controle sobre o arsenal nuclear dos E.U.A, uma alegação reforçada pelas cinzas fumegantes de muitas cidades e o testemunho de sua mãe Síria. Mas depois que sua mãe foi acusada de apostasia, ela descobre que seu pai pode não ser o ‘mártir’ que o Ghuraba alega.

O Ghuraba realmente possui os códigos de lançamento para os mísseis ICBM? Ou o pai dela ‘os bloqueou’, como o Coronel Everhart, o comandante rebelde, quer que ela diga ao mundo? Se ela lutar, o Ghuraba irá matar sua irmãzinha, mas se ela não lutar, eventualmente o Ghuraba irá hackeá-los e bombardear a todos. Tudo o que Eisa tem é um rosário de contas muçulmano e o mito pré-Islâmico que seu pai lhe contou na noite em que ele desapareceu.

.

O destino do mundo, e a segurança de sua irmãzinha, estão na balança enquanto Eisa vasculha mitos antigos, sua fé muçulmana, e o que realmente aconteceu na noite em que o Ghuraba tomou o controle.

.

"O paralelo que a autora traça entre a paisagem atual na Síria e Iraque e um futuro Estados Unidos é inquietante, pois eles retratam as atrocidades dos dias atuais com precisão inabalável …"

Dale Amidei, Jon's Trilogy



Índice

Sinopse

Índice

Dedicatória

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Epílogo

Um momento do seu tempo, por favor…

Entre para o meu Grupo de Leitores

Sobre a Autora

Outros livros

Direito autoral



Dedicatória

Eu dedico este livro às corajosas mulheres Curdas que resistem e lutam enquanto seus homens abandonam suas famílias e fogem.

Que vocês arrastem o EI para o Inferno.

.

Anna Erishkigal


Prólogo

Ele veio da Síria, o Pai dos Forasteiros, e declarou uma era dourada onde aqueles que fossem fiéis se ergueriam para dominar o mundo. Os inimigos de Alá contra-atacaram o Ghuraba. Eles bombardearam nossas cidades sagradas e colocaram o Abu al-Ghuraba na prisão.

Mas então, um Mahdi veio. Um guerreiro sagrado. O General Mohammad bin-Rasulullah virou as armas dos infiéis contra eles mesmos. Ele massacrou os líderes deles durante o sono e convenceu os exércitos deles a o seguirem, ou morrerem…



Capítulo 1

O som de armas automáticas se mistura com o chamado para as orações. O adhan antes da alvorada sobe e desce junto com os tiros, carregado pelos alto-falantes que correm ao longo da cidade. Eu afasto minhas cobertas e deslizo pelo estreito corredor que separa minha cama da de minha irmãzinha.

"Nasirah!" Eu chacoalho ela. "Acorde!"

Minha irmãzinha murmura, um fino livro vermelho ainda agarrado ao seu peito. Finas tiras cinzentas de luz afluem pela soleira da janela para revelar o título: Lozen: Uma Princesa das Planícies.

"Nasirah!" Eu a chacoalho freneticamente.

O tiroteio se aproxima.

Nasirah abre seus olhos.

"Eisa?" ela sorri. "É hora de rezar?"

"Sim."

Eu meio que a arrasto para o corredor entre nossas camas. O tijolo vai nos proteger das balas, mas a janela é vulnerável. Eu olhei de relance para os pequenos buracos negros no reboco. Aquele abriu um buraco no tecido do meu hijab.

Gritos irrompem do lado de fora da janela, junto de motores em perseguição. O adhan antes da alvorada proporciona um pano de fundo lamurioso e surrealista ao estalo de pólvora e os gritos de homens quando morrem.

Nasirah desliza o livro pra debaixo do colchão. Eu puxo o hijab dela pra cima. Em mim, o gesto é instintivo, para cobrir o busto. Mas Nasirah só tem nove anos. Ela não entende que o hijab a mantém segura.

Eu tenteio minha mesa de cabeceira em busca de meu rosário de oração, pedaços de tectito negro que caíram dos céus. Eles são enfileirados num misbaha de trinta e três pequenas contas, um conta grande que as conecta, e três discos de prata gravados com pássaros.

Atrás dele repousa um fotografia de mim, Nasirah e nosso irmão do tempo antes do Ghuraba. Parece um sonho, eu em meu lindo vestido de festa cor-de-rosa, os cachinhos dourados de bebê de Nasirah, Adnan sorrindo, e Mamãe vestindo seu hijab florido e jaleco branco, segurando um prêmio por promover a saúde pública. Papai se encontrava entre nós, os braços bem estendidos para abarcar todos nós, vestindo um uniforme azul encrespado com cinco estrelas douradas.

Um tiroteio prolongado irrompe do lado de fora da janela. Plink! Uma bala voa pela soleira e nos cobre com vidro estilhaçado.

"Eisa!" Nasirah grita.

Eu empurro a cabeça dela contra o chão.

"Reze!"

Eu agarro meu misbaha, rezando com todas as minhas forças enquanto o chamado para as orações seguem zumbindo. Eu retrato Ele fervorosamente, lá de pé entre nós e a janela.

"Ó, Alá, Pedimos que reprima os inimigos pelo pescoço e buscamos refúgio em Ti contra o mal deles…"

Nasirah gruda em mim enquanto eu recito o dua'a para proteção. Nós trememos quando as vozes param bem do lado de fora da janela.

O tiroteio para quando o chamado matutino para as orações cessa suas lamentações.

Homens gritam.

Uma voz fala, arrepiante e agourenta. Uma voz que eu ouvi um milhão de vezes, no rádio, na televisão.

Nos meus pesadelos…

Eu sei o que está vindo, mas eu ainda choro quando o homem começa a gritar. Segue continuamente, subindo e descendo como o chamado para as orações antes da alvorada. Finalmente ele diminui para um gorgolejo nauseante.

E então, há silêncio …

Eu fecho uma mão sobre a boca de Nasirah pra que ela não grite. Eu não quero nenhum motivo para atrair a atenção deles.

Os Ghuraba riem enquanto sobem em seus caminhões e vão embora.

Lágrimas correm pelas bochechas de Nasirah.

"Você acha que eles o mataram?"

Eu me levanto e espio pelas ripas da soleira da janela enquanto o sol termina de se erguer sobre a Cidade Califado.

"Não," Eu minto.

Eu não conto a ela sobre o sangue que desfigurava a neve.



Capítulo 2

Eu me lembro de ir à escolar com ela. Nós costumávamos pegar o ônibus juntas antes deles explodirem tudo. Acho que o nome dela era Becky, antes do Ghuraba fazer ela trocar para Rasha. Tudo o que eu sei é que ela é três anos mais nova que eu, talvez treze anos? Se não fosse pena insistência da Mamãe sobre precisar de uma aprendiz, esse teria sido meu destino.

"Tire isso de mim!" Rasha guincha.

Mamãe dá uma espiada pelo lençol drapejado através dos joelhos de Rasha. A Doutora Maryam McCarthy não é mais uma médica clínica, mas ela desafiadoramente usa o mesmo jaleco branco que usava na foto ao lado da minha cama. Só que agora ele estava velho e manchado. Bem como nossa sala de estar, que agora era um sala de emergência improvisada.

"Ela não está dilatando," Mamãe diz em Árabe. "Eisa, cheque o batimento cardíaco do bebê."

Eu espantei as irmã-esposas de Rasha, duas bolhas ansiosas cobertas de preto, e pressionei meu estetoscópio contra o abdômen inchado da garota. Ele reluz, brilhante e esperançoso, contra minha abaya preta. Se eu for pega com isso eu serei açoitada, mas ninguém me desafia desde que eu o use aqui.

No quarto do bebê. O lugar onde futuros mártires nascem.

"Trinta e sete batimentos por segundo," eu digo. "Está errático e devagar demais."

"Ela está tendo uma hemorragia." Mamãe ergue uma mão, coberta de sangue. "Qual é o seu diagnóstico?"

Eu olhei saudosamente para o armário onde mantemos escondida a máquina de ultrassom. Se tivéssemos energia, eu recomendaria usá-la, mas tudo o que temos é o suave brilho amarelo de lâmpadas à óleo.

"Placenta prévia?" Eu chutei.

A Mamãe assente, satisfeita.

"E seu tratamento recomendado, tabib?"

Eu olho para a primeira esposa do Comandante, Taqiyah al-Ghuraba, a irmã de Abu al-Ghuraba e líder da temida brigada Al-Khansaa. Perto de dois metros de altura, 50 e tantos anos e bem nutrida, ela carrega um chicote para forçar as mulheres a cumprirem as rígidas leis puritanas do Ghuraba. Todos que se levantam contra ela se encontram açoitados publicamente. E isso se você tiver sorte. Os azarados acabam sendo arrastados para a Cidadela.

Minha voz trina.

"Uma cesariana," eu sussurro.

Os olhos de Taqiyah se alargaram e ficaram selvagens, se for possível parecer ainda mais fanática do que ela já é.

"Cirurgia é uma inovação!" ela silva em Árabe.

"Se não executarmos o procedimento," Mamãe diz, "tanto Rasha, quanto o bebê morrerão."

"Só Alá pode decidir quais mulheres podem gerar filhos para o Ghuraba!"

Os olhos da Mamãe queimaram em âmbar como os de uma águia. Ela reconhece a obstinação de Taqiyah's pelo que é; uma tentativa da Primeira Esposa seca de se livrar do ventre mais jovem.

"Eisa?" Mamãe aponta para a porta. "Fale com o Comandante."

"Mas ele bateu nela!" Eu protesto.

"Nosso marido a pegou lendo!" Taqiyah desenrola o chicote e agita o cabo contra as irmã-esposas na mesa. As duas esposas inferiores se afastam.

"Eu não pretendia fazer mal, Sayidati Ghuraba!" Rasha chora. "Era só um livro sobre uma princesa Indígena! Por favor, não me deixe morrer!"

Mamãe aponta para a porta.

"Eisa? O Comandante."

Taqiyah a bloqueia.

"Eu disse que eu proíbo!"

Ela pressiona o cabo de couro marrom contra minha bochecha, quente pela sua pegada e cheirando sangue de outra pessoa. Eu quase posso senti-lo ferroando minhas costas. Eu já o suportei muitas vezes.

"Mamãe?"

Eu olho entre as duas matriarcas antagônicas. Taqiyah al-Ghuraba comanda as mulheres, mas Mamãe faz o parto dos bebês.

Mamãe espetou um agulha intravenosa no braço de Rasha. Não uma agulha de verdade. Mas uma feita com potes de vidro reciclados e soro caseiro. O quarto é preenchido com o cheiro de narcótico enquanto a mamãe enche o jarro com um líquido rosa onírico.

"Grite para ele se for preciso," ela diz em Inglês. "Se ele quisesse que ela morresse, ele não a teria trazido a mim."

Eu ergo meus olhos para encontrar o olhar furioso da Al-Khansaa. Eu vou pagar por minha ousadia depois. Mas por ora, eu tenho que ser forte. Eu toco meu rosário de oração, agora enrolado em volta do meu pulso.

"Sayidati?"

A Al-Khansaa se afasta, não porque ela dá consentimento, mas porque o Abu al-Ghuraba precisa de um mártir e ela sempre os dá a ele. Com o ouvido de seu irmão, ela se certificará de que aconteça no momento em que a criança fizer cinco anos.

Eu deslizo meu hijab por meu rosto pra fazer um véu antes de sair pela porta. Nós não temos sala de espera. Nosso hall de entrada serve como nossa recepção.

O Comandante al-Amar caminha para frente e pra trás no que outrora foi um vestíbulo de bom gosto. Ele é um gigante de dois metros de altura, o Comandante de Cidade Califado, com curtos cabelos loiros, uma barba longa e cheia e um shemagh preto usado pelos homens Ghuraba. Eu acho que um dia ela possa ter sido bonito, antes que um estilhaço tirasse um dos seus frios olhos azuis.

Eu baixo meu olhar para evitar fazer contato visual.

"Como está meu filho?" ele pergunta.

"Rasha está muito doente," eu digo. "Se ela não tiver ajuda, tanto ela quanto seu filho morrerão."

"Que tipo de ajuda?"

"Cirurgia, Senhor. Ela precisa de uma Cesariana."

Um longo uivo dolorido foi filtrado pela parede. Ele cerra os punhos e gira para encarar o vidro vedado da porta externa. Eu quase me sinto mal por ele, até lembrar que ele bateu nela.

"Cirurgia é uma inovação, sim?" ele pergunta.

Sim. Esta é a interpretação literal …

"O Profeta comandou a misericórdia," eu digo, "especialmente de um marido para com sua esposa."

O Comandante endurece.

"Maryam é uma mulher. A arte da medicina é reservada apenas a um homem."

"É proibido que um homem não aparentado toque uma mulher," eu o recordo. "Nenhum médico irá arriscar. A punição é a morte, para o médico e para o paciente."

A voz dele engrossa.

"Então os dois devem morrer?"

Eu mordo meus lábios, rezando por uma resposta que não seja 'Sim. Isso é o que seu cunhado decretou…'

Eu toco meu rosário.

Por favor, meu Senhor? Me diga o que fazer?

A resposta veio a mim. Escritura, tirada de contexto. Algo que o Comandante possa levar de volta ao seu cunhado para justificar a decisão.

"O Profeta deu exceções," Eu digo.

"Que tipo de exceções?"

"Ele disse: 'nenhuma alma é ordenada a ser criada, mas Alá irá criá-la.'"

Eu seguro a respiração. Eu podia ser açoitada por lembrá-lo de que ele levou Rasha contra a vontade dela, embora ao menos, ele tenha se casado com ela. Normalmente, eles só as estupram, as mulheres que Abu al-Ghuraba dá a seus homens são recompensas.

O Comandante não se vira.

"Eu tenho negócios com o General," ele diz em fim. "Quando eu voltar, Alá irá me surpreender? Tendo eu um filho ou não?"

"Deus é grande!" Eu digo.

"Louvado seja o vosso nome."

Eu espero até que ele vá embora, depois deslizo de volta para o consultório médico.

*

Eu passo para a cozinha, cantarolando o jovial adhan de nascimento que acabei de cantar no ouvido do recém-nascido. Diferente da frente da casa, nossa cozinha ainda é nossa, exceto pelas lamparinas, adicionadas para lidar com os constantes blecautes. Nossa geladeira está quebrada porque as fábricas que faziam peças para ela foram destruídas há anos atrás, mas nosso forno ainda funciona. Gás natural. O que significa que podemos cozinhar mesmo quando os rebeldes explodem a rede de energia.

"O que está cozinhando?" Eu pergunto à Nasirah, embora eu saiba a resposta pelo aroma amiláceo.

"Feijões." Ele me dá um sorriso alegre.

Eu jogo os instrumentos cirúrgicos ensanguentados que eu acabei de usar para suturar o ventre de Rasha dentro da pia e cheiro a panela. Feijões secos reconstituídos, levemente queimados.

Aos nove anos de idade, Nasirah é uma garota de rosto doce, quase tão alta quanto eu, porém mais magra, como uma potra de pernas compridas. Nós duas herdamos as sardas no nosso pai, o bastante para entregar o lado Irlandês, mas a pele dela é clara, diferente da compleição oliva que eu herdei da Mamãe. Isso a torna um alvo, e por isso nós nunca a deixamos sair de casa.

É uma das poucas coisas em que Adnan e eu concordamos.

Nosso irmão, Adnan, é a imagem cuspida de nosso pai. Ele se senta à mesa, braços cruzados, usando sua expressão sombria usual. Aos não-bem-treze-anos, ele carrega o embaraço desajeitado de um garoto preso num surto de crescimento. Ele é um perfeito Gharib com sua camisa longa, seu chapéu de oração, e a perpétua citação do Alcorão.

"Por que você não me preparou o almoço?" ele exige.

Eu estendo minhas mãos, ainda cobertas de sangue.

"Você sabe que eu estava ajudando a Mamãe a fazer o parto de um bebê!"

"Você quer dizer realizar uma cirurgia," ele faz uma carranca. "O Ghuraba diz que é heresia."

Eu lavo minhas mãos e depois as seco numa toalha limpa antes de responder:

"O Comandante nos deu uma derrogação especial."

Eu me espremo por ele até a antessala onde guardamos nossas burcas penduradas em cabides de casacos. Eu enrolo um tecido preto por cima do meu hijab, pouco mais que uma gaze quadrada, e depois coloco minhas luvas para esconder minhas mãos.

Elas ficam presas no meu rosário, deixando meu pulso exposto. Eu sei que eu deveria tirá-lo, especialmente com Taqiyah em pé de guerra, mas eu preciso senti-lo contra minha pele. É difícil explicar, o modo como ele faz eu me sentir invencível. Como se Alá estivesse cuidando de mim. Como se ele sussurrasse que parte de cada escritura é verdade, e que parte o Ghuraba distorceu em mentiras.

Eu deixo ele lá. São só alguns centímetros de pele.

"Aonde você vai?" Adnan pergunta.

"Mamãe precise de remédios para o bebê."

"Você sabe que é proibido sair sem uma escolta."

Eu tiro o casaco de inverno dele o jogo para ele.

"Então se apresse. Porque se o filho do Comandante morrer, você vai sofrer as consequências."

Adnan se levanta de sua cadeira, furioso, como se desejasse me bater.

"Você não pode falar comigo assim!" Sua voz dá um trinado pubescente. "Eu sou o homem desta casa."

"Não por mais duas semanas," eu retruco. "Você ainda só tem doze anos."

Eu baixo a gaze preta para cobrir o meu rosto, e depois pego a burca preta do cabide. Eu a visto sobre meu corpo inteiro.

"Você vem?" Eu pergunto. "Ou prefere que eu seja chicoteada de novo?"

Adnan cruza os braços e faz beicinho.

"Eu devia te bater."

Só para enfurecê-lo, eu desgrenho o cabelo dele como eu fazia quando ele ainda era um garotinho. Ele repele minha mão. Eu destranco a fechadura e saio para nosso pequeno quintal dos fundos. Adnan vem tropeçando atrás de mim, ainda botando seu casaco.

"Um dia desses, você vai ter o que merece!" ele disse.

"Mas eu tenho você pra me proteger," Eu digo com minha voz mais doce.

Isso o apazigua, esse tirano em produção. Ele não foi sempre assim. Mamãe tem fé que ele se lembra o bastante de nosso pai para se tornar um bom homem.

Nós destrancamos o portão dos fundos e deslizamos para fora da segurança de nossa cerca. A neve cai gentilmente do céu, ou talvez sejam cinzas nucleares? O ar tem cheiro de sujeira, não limpo como a neve deveria cheirar, e às vezes cai no meio do verão. O Ghuraba jura que as armas nucleares só causaram danos mínimos, mas nós vemos bebês abortados demais para essa alegação ser inteiramente verdadeira.

"Você devia enrolar o seu shemagh em volta do rosto," eu digo a Adnan. "Para evitar as cinzas."

"É só neve!"

Ele me guia para fora do beco, por sobre os escombros de uma casa devastada por um morteiro. É difícil dizer se foi nosso disparo ou dos rebeldes que fez isso. Nos primeiros anos éramos nós contra eles, mas então os rebeldes ficaram sem armas, então agora é tudo só a gente. Qualquer um que não fosse nós, era morto nos expurgos.

Nas ruas, nossa conduta muda. Adnan caminha na frente numa gabolice convencida, enquanto eu sigo atrás, minha cabeça curvada, só longe o bastante para deixar claro que ele está na liderança, mas não tão longe pra que qualquer um pudesse se enganar sobre eu ter uma escolta.

As ruas estão vazias exceto pela patrulha usual: homens à pé portando armas automáticas e um Hummer que circula a vizinhança com uma metralhadora. Um homem encontra-se na traseira, próximo ao atirador com um megafone: "Se alguém vir algum estranho, reportem à polícia secreta.' Uma bandeira negra se agita montada no para-choque com letras Árabes brancas, um míssil ICBM e uma foice, a bandeira do Ghuraba.

Adnan acena.

"Saudações, irmãos!"

Os homens Ghuraba o encaram com enfadado desdém. Um deles me encara. Eu posso sentir seus olhos ávidos, avaliando o que está escondido sob minha burca.

Eu toco meu rosário.

"Nosso Senhor, me mantenha a salvo de olhos curiosos."

O carro de patrulha continua em movimento. Só então eu ouso respirar.

Adnan me guia pelas ruas que costumavam ser fachadas de lojas. Velhas placas descascadas proclamam que costumava haver sapatos ou roupas ou equipamentos esportivos à venda. Tudo cheira a decadência. A maioria dos prédios tem madeira compensada pregada às janelas para prover um lugar para colar os pôsteres de propaganda postados em Árabe e Inglês.

"Não há deus além de Alá!"

Ele retrata um Gharib montando um míssil ICBM como se montasse um touro.

"Louvado seja nosso glorioso Mahdi!"

Os pôsteres mostram o General Muhammad bin-Rasulullah numa variedade de poses heroicas. Sua barba ruiva flui de seu rosto como um rio de fogo, enquanto atrás dele; mísseis ICBM decolam no céu.

Um último pôster retrata um homem num uniforme da Força Aérea Americana com cinco estrelas no peito entregando uma chave para Abu al-Ghuraba. Uma penumbra de luz irradia da chave. Acima do pôster, ele proclama "Louvado seja o Guardião por sua conversão."

Atrás dele há um míssil ICBM sendo disparado.

Eu beijo meus dedos enluvados e pressiono eles contra o homem.

"Sinto sua falta Papai."

Adnan sinaliza. Ele me guia na direção do prédio do capitólio do Estados Unidos bombardeado.


Capítulo 3

Conforme nos aproximamos das lojas gerenciadas pelo governo, eu começo a ver outras mulheres, sempre guiadas por uma escolta. É difícil identificar que mulher é quem. Nós somos proibidas de nos socializar, e as burcas cobrem tudo incluindo os olhos, tornando difícil de ver. Nós não podemos usar cores ou joalherias que nos identifiquem, então temos que confiar nos sentidos.

"Assalamu Alaikum!" Eu sussurro suavemente para um trio de mulheres passando.

"Inshallah," uma sussurra de volta.

Aquela seria Sarah, a julgar por sua escolta, um homem de aparência zangada com uma barba negra cheia. Nós a tratamos há seis meses atrás de ferimentos internos. Ela se apressa. Eu não a ponho em risco de outra surra por falar mais com ela.

Nós passamos por mais vários grupos de mulheres, todas elas carregadas de suprimentos. As escoltas delas caminham à frente delas, de mãos vazias, saudando outros homens Ghuraba. Elas ficam paradas como pacientes mulas de carga, esperando pra que seus homens as levem para casa.

Adnan saúda os homens, ansioso por atenção. Dois Ghuraba armados desgrenham o cabelo dele e lhe perguntam sobre suas lições do Alcorão. Eu fico parada atrás dele, dando o meu melhor para não ser notada enquanto ele conversa animadamente sobre os amigos que se tornaram mártires recentemente. Eu não ouso recordá-lo dos medicamentos. Se ele é percebido como fraco, isso não só seria ruim para ele, mas ainda pior para mim.

Enfim ele escapa.

"Por aqui," ele diz.

Ele dispara na direção do parque, renomeado como Parque Medina. Eu corro atrás dele, apavorada que possa ser deixada sem escolta.

Construído no topo dos escombros do antigo Memorial de Lincoln ergue-se um palco onde o Ghuraba conduz suas execuções e comícios antes da batalha. Todos os dias, pessoas são executadas aqui: hereges e apóstatas, simpatizantes de rebeldes, feministas e afeminados. Sempre há pessoas reunidas, mas hoje parece ser um público extra grande.

"Testando? Testando?"

Um técnico de som dá uma batida no microfone enquanto os cinegrafistas ajustam as hastes de apoio.

"Um pouco mais pra esquerda!"

Mais dois Ghuraba caminham através do palco, marcando cuidadosamente cada local com um ponto laranja brilhante. Os cinegrafistas os monitoram e exibem as imagens em duas enormes telas de vídeo que flanqueiam o palco, enquanto uma Terceira tela de vídeo atrás deles exibe efeitos especiais.

"Adnan!" Eu silvo. "Nós temos que pegar os remédios."

"Mas a execução dos rebeldes é hoje!"

Eu agarro o braço dele para puxá-lo de volta para a rua.

"Eu disse que nós vamos assistir!" ele vocifera.

Homens portando metralhadoras olham todos na nossa direção. Um deles começa a se aproximar. Oh drat! Oh drat! Eu baixo minha cabeça e finjo servilismo, afundando meus ombros para parecer que não sou maior que uma criança.

"Algum problema?" O Gharib anda à minha volta, avaliando minha burca.

Adnan espera até me ver tremendo antes de me tirar do aperto.

"Não. Tudo bem."

O Gharib vai embora, sua M16 pendendo casualmente em seus braços. Eu mantenho minha boca fechada ao invés de censurar meu irmão. Quando ele era mais novo ela ouviria a razão. Mas agora, ele acha que é tudo um jogo.

Um Imame sobe no palco e começa um dua'a de vingança cantado. É uma canção que todos conhecemos bem. Alto-falantes amplificam o hino enquanto os espectadores cantam junto. Todos ele me imprensam, milhares de homens sanguinários. Eu grudo em Adnan, rezando para não nos separarmos.

O dua'a fica mais alto conforme onze prisioneiros são trazidos pra fora, vestidos de laranja, cada um escoltado por um Gharib vestindo um shemagh preto que cobre seus rostos exceto pelos olhos. Diferente dos Ghuraba, os prisioneiros estão todos barbeados. É estranho ver homens crescidos sem barba. Os executores forçam os prisioneiros a se ajoelharem nos pontos laranja.

Esses são nossos inimigos…

Inimigos de Alá…

A multidão aplaude quando um homem de barba ruiva sobe no palco, o General Muhammad bin-Rasulullah, carregando um saco de plástico de lixo verde. Ele usa um antigo uniforme do exército dos Estados Unidos acrescido de abotoaduras e armas extras. Em seu peito reluzem cinco estrelas curvadas que o marcam como o Mahdi. A multidão aplaude num zhagareet jovial quando ele flexiona os ombros e ergue um braço num 'V' de vitória.

"Esta manhã, nós interceptamos um conluio para libertar estes prisioneiro." Ele se inclina para frente. "Eu não iria querer privar vocês do julgamento de Alá agora, iria?"

A multidão grita: "Não!"

"Se você quer que algo seja feito direito, você deve sempre fazer você mesmo." Ele põe a mão dentro do saco. "Vocês têm a minha palavra de que não haverá mais tentativas de fuga."

Ele ergue uma cabeça cortada.

A câmera dá um zoom, capturando a expressão do homem morto. Eles a projetam nas duas telas de vídeo, assim como uma transmissão ao vivo às estações de propaganda ao redor do mundo.

A multidão aplaude.

"Allahu-Akhbar!"

Eu grudo em Adnan. Por favor! Vamos sair daqui?

Ele aplaude junto aos outros.

Rasulullah joga a cabeça para a multidão. Os homens a chutam. Eles a passam de um lado para o outro como um bola de futebol.

Adnan corre atrás dela. A cabeça para aos meu pés.

Meu senhor! Meu senhor!

Meu estômago se aperta. Eu fecho minha mão sobre minha boca para evitar de vomitar. O homem morto me fita, sua boca congelada num grito silencioso.

"Eisa! Chuta pra mim!" Adnan ri.

Um Gharib a intercepta e a chuta na direção dele.

No palco, o General Rasulullah balança o punho para as câmeras, cada ação sua transmitida extraordinariamente nas telas de vídeo que flanqueavam o palco.

"Você achou mesmo que poderia me vencer, Coronel Everhart?" ele grita. Ele aponta para suas cinco estrelas curvadas. "Você se esquece de que eu aprendi táticas militares com o Guardião!"

Na beira do palco, um homem alto aparece cercado de guarda-costas. A multidão silencia-se. Todas as três câmeras de televisão se panoramizam para filmar o homem ascendendo ao palco.

Ele é um homem alto, o Abu al-Ghuraba, mais alto até que sua irmã, na casa dos 60, com uma túnica preta para esconder uma figura robusta. Em sua cabeça ele usa um enorme turbante preto, o que ele usa em todos os pôsteres de propaganda. Ele tem feições severas, uma barba cinzenta e cheia, e olhos negros intensos que olham como se pudessem roubar minha alma.

Mesmo o General Rasulullah se curva para o Abu al-Ghuraba. Ele curva sua cabeça reverentemente.

"Que a paz esteja convosco, Pai dos Forasteiros."

O Abu al-Ghuraba pousa uma mão sobre a cabeça de Rasulullah.

"Que Alá o abençoe por trazer os inimigos Dele à justiça."

"Eu sou o servo mais leal de Alá," Rasulullah murmura.

A multidão fica em silêncio quando o Abu al-Ghuraba vira-se para se dirigir a nós. Ele perscruta de uma fileira para outra, e então olha para as câmeras.

"Hoje é um dia jubiloso no paraíso, pois o Mahdi de Alá encontrou o local onde os infiéis se abrigavam!"

Ele gesticula pra os prisioneiros, quase esquecidos.

"Nós lhe trouxemos os líderes de mais alta patente deles para que vocês possam testemunhar enquanto eles recebem o julgamento por seus crimes."

Um prisioneiro vocifera: "Você não pegou o Coronel!"

A multidão resmunga enquanto o Abu al-Ghuraba se desloca para a frente do homem. Alto, barbeado, loiro. O tipo de homem que costumava agraciar as páginas de quadrinhos de super-heróis antes de o Ghuraba os queimar. Ele põe o dedo sob o queixo do prisioneiro.

"Mas eu tenho filho dele. Você pensou que não descobríamos quem você é, Lionel Everhart?"

Ele agarra o prisioneiro pelo cabelo e puxa sua cabeça na direção das câmeras.

"Agora ele irá assisti-lo morrer!"

Eu sinto um calafrio familiar quando o Abu al-Ghuraba gesticula para os homens de capuz preto de pé atrás de cada prisioneiro. Numa coordenação bem ensaiada, todos os onze puxam suas facas khanjar curvadas de seus cintos e estendem as facas para as câmeras.

"Allahu-Akhbar!" eles vociferam.

A multidão aplaude quando o Rasulullah fica atrás do prisioneiro descarado e toma a faca do executor que o guardava.

"Agora eu terei vingança do último homem vivo a me trair!"

Ele pressiona a faca contra a garganta do prisioneiro.

O prisioneiro faz contato visual comigo. A única mulher na multidão.

"Ainda que eu caminhe pelo vale da sombra da morte," suas palavras vibram por mim, "não temerei mal algum…"

Seus companheiros prisioneiros acompanham a prece cristã enquanto o Abu al-Ghuraba ergue seu braço.

"…por que tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Tu prepararás um banquete para mim na presença dos meus inimigos …"

Eu seguro o meu rosário.

Não. Não. Não. Não. Não.

"Que suas almas queimem eternamente no inferno!"

O Abu al-Ghuraba baixa seu braço.

Os executores começaram a serrar os pescoços dos prisioneiros.

Eu fecho minhas mãos sobre meus ouvidos, soluçando, enquanto os prisioneiros gritam.

E segue continuamente. Assim como do lado de fora da janela esta manhã, o homem cuja cabeça cortada jazia em algum lugar, esquecida, agora uma bola de futebol. A agonia deles rasga minhas entranhas conforme seus gritos se transforam em gorgolejos.

Eu me viro.

"Irmã!" Adnan agarra meu braços. "Não me envergonhe!"

"Eu não posso ver!" Eu grito.

"Só os descrentes desviam o olhar!"

As câmeras dão um zoom conforme os executores prolongam a agonia dos prisioneiros o máximo que podem. A multidão enlouquece com um zhagareet de banshee. Eu posso sentir a sede de sangue deles. Prová-la. Ela vibra pela minha alma como um animal selvagem e sedento. Eu posso sentir o poder que o Ghuraba devora toda vez que eles matam.

Enfim, a gritaria para. Eu me forço a olhar para os onze corpos decapitados.

Eu toco meu rosário e digo um dua'a pelos espíritos deles. Eu encontro o olhar do General Rasulullah. Eu digo as palavras abertamente, porém suavemente.

"Que Alá tenha piedade de suas almas."

Eu agarro o braços de Adnan.

"Vamos. Mamãe ficará zangada se não levarmos os remédios."

"Mas…"

Eu me separo dele e abro caminho pela multidão.

Ele chama por mim, "Eisa! Eisa!"

Eu tenho que escapar dele! Esse irmão, que aprecia assistir homens cometendo o mal.

A multidão começar a afinar. Eu começo a correr na direção da rua no limite do parque. Uma forma alta e negra se materializa à minha frente e agarra meu braço.

"Eu posso ver seus olhos."

O medo aperta minhas entranhas quando Taqiyah al-Ghuraba e sua brigada al-Khansaa bloqueia minha fuga. Elas correm em bando de seis, como hienas. Seis mulheres de calças usando trajes de combate e chicotes sob seus niqabs e chadors.

Eu imediatamente baixo meu olhar.

"Eu uso dois véus negros sob minha burca, Sayidati," Eu digo alto.

Taqiyah desfralda seu chicote.

"Está me chamando de mentirosa?"

"Não, Senhora. Talvez seja um truque da luz do sol?"

Meu corpo inteiro treme quando Taqiyah agarra meu pulso e afasta a manga da minha burca.

"Eu posso ver a sua pele." Ela segura as contas enroladas em volta do meu pulso. "E você está usando joias?"

Parece que algo sagrado está sendo violado quando ele toca meu rosário, suavizado pelo toque de incontáveis orações.

Não me toque, vadia! Eu tenho que lutar com o impulso de dizer isso ou retaliar.

"Este é meu misbaha, Senhora," Eu digo mansamente, em vez disso.

A multidão se divide. General Rasulullah caminha na nossa direção, ainda empunhando sua faca de decapitação.

"Qual parece ser o problema, Sayidati Taqiyah?" ele sorri.

"Esta mulher ousa vir à execução awrah!"

Eu tremo incontrolavelmente quando Rasulullah agarra meu pulso.

"Rosário é uma inovação. Sim?"

Ele toca as contas negras simples, do mesmo jeito que Taqiyah fez, só que seus dedos se demoram sobre minha pele nua. Seus olhos verdes atravessaram meu rosto velado.

"M-m-meu pai disse que contas assim eram usadas pela abençoada Khadija, que a paz esteja sobre ela," eu gaguejo.

Rasulullah me dá um sorriso cruel enquanto desliza minha luva para expor meu pulso inteiro. Uma multidão começa a se reunir. Homens. Curiosos a respeito de qualquer mulher que tenha se descontrolado das leis puritanas de al-Khansaa. Eles apreciam nos assistir sendo açoitadas. Especialmente quando Taqiyah rasga nossas roupas nas costas para expor nossa pele, nos deixando nuas exceto por nossos rostos anônimos.

"Você sabe o que acontece com uma mulher que expõe sua pele?" Rasulullah desliza uma mão para cima para tocar meu seio.

"Ei! Tire a mão da minha irmã!"

Como uma prece, meu irmão finalmente aparece.

Rasulullah vira-se para Taqiyah.

"Deixe-nos. Eu mesmo vindicarei a punição."

"Você não fará tal coisa!" Adnan arranca meu pulso da mão do General Rasulullah. "Eu sou o homem da família. É meu trabalho bater nela. Não seu!"

"Você não será um homem por mais duas semanas." A voz de Rasulullah ganhou uma tendência perigosa. "Você tem só doze anos."

Adnan empina seu queixo, a mesma expressão arrogante que usou no almoço.

"Ela é a filha do Guardião," ele diz. "Se você a quer, você pode pagar o dote e casar com ela. Mas eu vou matá-la eu mesmo antes de deixar você levar ela na mão!"

Por um momento pareceu que Rasulullah ira matá-lo, mas então ele ri. Ele solta meu pulso e bagunça o cabelo de Adnan com seus dedos sangrentos.

"Ahh, esta é sua irmã, hein?" Seus sorriso é como um lobo mostrando as presas. "Eu não deveria esperar menos do filho do Guardião, deveria!"

Ele e Taqiyah riem, como se isso fosse uma piada interna.

"Muito bem, então," ele diz. "Bata nela você mesmo. Mas apareça pra me ver à noite. Nós discutiremos quanto vai custar para fazer de você meu cunhado?"

Adnan sorri como um idiota.

"Senhor! Seria uma honra."

Ele agarra meu braço e me puxa para longe da brigada al-Khansaa antes que eu possa fazer algo estúpido, como dizer ao Rasulullah que eu prefiro morrer.

"Você não vai me casar com aquele açougueiro!"

"Eu posso e eu vou!" Adnan diz. "Você já passou muito da idade em que deveria ter tomado um marido!"

"Mamãe precisa de mim. Ela está me treinando para ser uma médica."

Adnan gira para me encarar, sua expressão é odiosa.

"Eu estou cansado de ser constrangido pela heresia da Mamãe! Todos os meus amigos dizem que ela é um djinn!"

Nós cruzamos a rua para evitar de andar na frente do enorme prédio de bloco de concreto que faz até ele tremer. A Cidadela. Lar da polícia secreta do Ghuraba. Além do dintel, o nome, J. Edgar Hoover Building, ainda testemunha o que um dia foi um salão da justiça. Agora, poucas pessoas que entram voltam a sair com vida.

Nós chegamos ao farmacêutico. Nós entramos para comprar o remédio.


Capítulo 4

O aroma de carne assando desliza por baixo da porta do meu quarto onde eu rezo ostensivamente. É isso o que sempre dizemos a Adnan. O que eu estou fazendo mesmo é estudar. O Ghuraba queimou todos os livros, mas Mamãe escondeu alguns para que todos tivéssemos algo para ler além do Alcorão.

O cheiro fica mais forte conforme eu entro na nossa cozinha, segurelha e aroma de caça, com só um toque de alecrim e algo mais? Alho talvez?

A eletricidade está ligada a julgar por Adnan colado à tela da pequena televisão que mantemos no balcão. Nasirah prepara uma tigela de ervilhas enquanto a Mamãe cantarola uma canção folclórica Síria, mexendo um pote cheio de arroz.

"Cordeiro?" Eu farejo. "De onde veio isso?"

"O Comandante enviou," Mamãe diz.

"Por salvar o bebê de Rasha?"

Mamãe faz uma carranca.

"Eu preferiria que ele não batesse nas esposas."

Nós duas olhamos para Adnan e mudamos de assunto. Eu preciso ter uma conversa com ela, mas não com Nasirah na sala para defendê-lo e chorar quando eu o chamo de cruel. Ela nunca esteve lá fora; nunca viu o mundo exceto por nossas mentiras cuidadosamente construídas e a imagem do paraíso transmitida na televisão.

O programa muda. É hora das notícias da noite.

"Olha!" Adnan aponta para a televisão. "Eisa! Olha o seu rosto!"

Meu 'rosto' é na verdade minhas mãos, erguida até minha boca sob o véu negro para parar o vômito quando a cabeça cortada rola e repousa aos meus pés. Um homem a chuta pra longe de mim. No tumulto, Adnan corre atrás da cabeça.

Mamãe e eu trocamos olhares preocupados.

"Adnan?" Ela aponta para o livro de matemática que ela deixou para ele, colocado sobre a mesa fechado. "Você terminou os seus estudos?

"O Ghuraba diz que aprender não é importante." Ele cruza os braços. "Apenas memorizar o Alcorão."

"Quando eu vou ter permissão de ir ao madrassa?" Nasirah pergunta inocentemente.

Adnan dá a ela um olhar condescendente.

"Garotas são burras demais para ler."

"Eu também ser l—"

Mamãe a corta.

"Adnan! Já basta!"

Adnan se levanta.

"General Rasulullah diz que eu sou o homem desta casa!"

Mama fica com a mesma expressão de olhos âmbar que ela ficou esta tarde quando se enroscou com Taqiyah. Uma feroz ave de rapina, empalhada numa gaiola com as asas aparadas, mas Mamãe ainda se lembra como era para um águia voar.

"Você não tem treze anos ainda," ela ralha. "Até que tenha, esta é minha casa e minhas regras!"

A voz de Adnan assume um tom arrepiante.

"Eu vou ter treze anos em duas semanas, e então você vai não ter escolha. Você vai me obedecer, senão!"

Ele atira seu guardanapo e sai enfurecido da cozinha.

"Adnan! Adnan!" Mamãe chama. "Volte aqui!"

A porta da frente bate. Nasirah começa a chorar. Mamãe se senta na mesa e põe a testa nas mãos.

"Desligue essa coisa." Ela gesticula para a televisão.

Nasirah obedece.

Eu me sento perto dela.

"Por que a senhora deixa ele falar com a senhora daquele jeito?"

Ela toca a cicatriz que corre de um lado do rosto dela. Ela nunca fala sobre como ela a conseguiu, mas alguns dias depois que o Papai desapareceu, o Ghuraba veio à nossa casa e nos levou À Cidadela. Por três dias nós ficamos sentados numa sala e não a vimos. Os guardas nos disseram que ela estava morta. Mas então ela voltou e anunciou que Papai era um mártir.

"É a vontade de Deus." A voz dela trina.

Eu estendo a mão através da mesa e pego a mão dela.

"Alá não admite um filho sendo desrespeitoso com seus pais."

Mamãe suspira.

"Alá não admite muitas coisas. Tudo o que você pode fazer é manter sua cabeça baixada, seu coração aberto e sua boca fechada se quiser viver."

Nós comemos o cordeiro em silêncio, seu sumo decadente com gosto de ácido enquanto nos forçamos a mastigar e engolir. Adnan não volta. Eu considero contar à Mamãe sobre seu comportamento desta tarde, mas ela parece tão descoroçoada que eu decido que agora não é a hora.

Nós lavamos os pratos rápido, antes que a eletricidade comece a vacilar. O Ghuraba põe a culpa dos contínuos blecautes nos rebeldes, mas acontece com muita regularidade pra ser algo que não seja deliberado.

As luzes se apagam às 7:10 p.m., dez minutos depois que a televisão entra em estática. Nós já temos uma luminária acesa, no caso de precisar. Embora 'no caso de precisar' é quase todas as noites.

"Vamos, Nasirah," Mamãe diz. "É hora de ir pra cama."

Nós ficamos juntas no estreito corredor entre as camas; eu, Nasirah e Mamãe, na direção de Meca, que por acaso é a janela. Eu desenrolo meu rosário. Nós todas louvamos Alá e nos ajoelhamos para lhe dar louvores. Elas me acalmam, as adulações ao nosso deus. Me faz sentir como se Alá cuidasse de mim, segura enquanto me ajoelho e pressiono minha testa contra o chão.

Nós terminamos as orações juntas, e então nos levantamos e guardamos nossos tapetes de oração.

"Tudo bem, você!" Mamãe toca o ombro de Nasirah. "Pra cama."

Ela a cobre. É a coisa que a Mamãe insiste em fazer, mesmo com o trabalho dela. Que alguém sempre sente-se com o paciente enquanto ela sobe as escadas para botar os três filhos na cama.

"Leia uma história pra mim?" Nasirah pede.

Mamãe beija a testa dela.

"Você sabe que garotas são proibidas de ler."

"Por favor, Mamãe! Vamos ler a história que o Papai deixou?"

Eu enfio a mão entre o colchão e puxo o livro que ela escondera esta manhã. Lozen: Uma Princesa das Planícies. Não é um livro particularmente grosso, Delgado e vermelho, mas também não é um livro pra crianças. O prefácio alega que era a tese de doutorado de alguém, mas o texto dentro dele, as ilustrações cuidadosamente coloridas, tudo faz alusão de que o contador de história desejava contar a história à sua própria garotinha.

Eu entrego o livro à Nasirah. O último presente que Papai deu a ela. Ela o abraça contra o peito. Mesmo ela, com toda sua ingenuidade, entende que o livro é algo que devemos esconder de Adnan.

Eu rio.

"Você já o leu tantas vezes que eu acho que já decoramos."

Ela abre o livro e lê seu capítulo favorito sobre o momento em que Lozen, uma donzela Apache, se arma para lutar ao lado de seu irmão contra o exército Americano.

"E o Chefe Victorio disse: Lozen é meu braço direito, forte como um homem, mais corajosa que a maioria, e sagaz em estratégia. Lozen é um escudo para seu povo."

Ela dá à Mamãe um olhar pensativo.

"Ela era mesmo forte como um homem?"

"Eu não sei." A expressão da Mamãe ficou cautelosa. "Eu não acho que Lozen tivesse filhos para proteger."

"Eu queria ser como a Lozen," Nasirah diz. "Forte o bastante para proteger a senhora e a Eisa."

Lágrimas enchem os olhos da Mamãe enquanto ela beija a testa de Nasirah. A voz dela engrossa.

"Você sabe que esse tipo de conversa é proibida, pombinha."

Ela cobre minha irmã e depois me encontra na porta com a lâmpada a óleo.

"Agora está na hora das suas lições, tabib McCarthy."

Com um sorriso ávido, eu a sigo pelas escada abaixo até a sala hospitalar. Uma das razões para a Mamãe ser capaz de prevenir meu noivado é que ela insiste que só uma virgem pode ajudá-la a fazer os diagnósticos. Os Ghuraba mais velhos não engolem essa. Mas os convertidos mais jovens, aqueles criados sem uma educação, vão acreditar em qualquer coisa. Mesmo em superstição.

Mamãe vai até o armário medico e o destranca com a chave que ela mantém acorrentada ao pescoço. O leve aroma de vinagre escapa para fora, aquilo que usamos para esterilizar coisas sempre que ficamos sem álcool.

"Hoje de manhã, você diagnosticou o bebê de Rasha com placenta prévia," Mamãe diz. "O que a levou a esse diagnóstico?"

"Intuição," eu digo.

Mamãe coloca seu livro: Procedimentos Cirúrgicos, sobre a mesa de exame e o abre.

"Você tem bons instintos, mas você precisa confiar no conhecimento adquirido. Não só em oração."

"Foi uma escritura que persuadiu o Comandante a lhe deixar realizar a cirurgia," eu digo. "Não um diagnóstico médico."

A Mamãe bufa.

"Foi a experiência em primeira mão dele de que -eu- a salvaria! Os filhos dele foram todos martirizados, então agora ele está desesperado por um que carregue seu nome."

"A senhora salvou as outras esposas dele?"

"Eu salvei o próprio Comandante!" Ela gesticula para o olho dela. "Se bem que naquela época, ele era só um piloto."

Eu me inclino para frente.

"O Comandante conhecia o Papai?"

A Mamãe me corta.

"Foco! Nós não temos muito tempo antes de Adnan chegar em casa com sermões sobre a heresia da leitura." Ela aponta para o livro médico. "Vamos revisar o procedimento pós-operatório outra vez."

Nós repetimos os passos pelos quais ela me guiou esta tarde. Ela cortou o ventre de Rasha. Mas eu ergui o bebê enquanto a Mamãe cortava o cordão umbilical. Taqiyah al-Ghuraba nos encarou com olhos odiosos enquanto a Mamãe me passava a agulha curvada e me ensinava a suturar o útero de Rasha de volta no lugar. Eu já suturei vários ferimentos, mas hoje foi a primeira vez que eu remendei o sistema reprodutor de uma mulher.

Uma batida alta vem dos fundos da casa. Duas altas. Uma suave. Uma pausa. E depois se repetem mais duas vezes.

A expressão da Mamãe ficou preocupada.

"O Adnan se trancou pra fora?" Eu pergunto.

"Fique aqui."

Ela gesticula para o armário médico. Eu escondo o livro enquanto Mamãe corre pra cozinha. Pela entrada aberta, eu ouço vozes abafadas.

"Eu lhe disse para nunca vir aqui," Mamãe diz.

"Nós não tivemos escolha," uma voz de mulher diz. "O abrigo foi comprometido."

"Você sabe que eles me vigiam!"

"Se ele não tiver ajuda," a mulher desconhecida diz, "nós vamos perdê-lo."

Alguém geme de dor enquanto os visitantes o arrastam por nossa casa. Ela se chama de Humnah, a lavadeira que vem toda semana para ferver os lençóis, junto de sua escolta, seu irmão, Sadik. Entre eles se arrasta um homem ligeiramente consciente, vestido como um Ghuraba, mas ele não possui barba.

"Há quanto tempo isso aconteceu?" Mamãe pergunta.

"Cedo nesta manhã," Sadik diz. "Nós removemos a bala de sua perna, mas a em seu estômago precisa de um médico de verdade."

Mamãe ergue a cabeça do paciente.

"Qual é o seu nome, soldado?"

"Lionel, Senhora. Lionel Everhart."

Tanto ela quanto eu congelamos ao ouvir o nome.

"O filho do Coronel Everhart?" Mama diz, esbaforida.

"Sim, Senhora." Ele dá a ela um sorriso cheio de dor. "Já nos conhecemos. Quando seu marido ainda era vivo."

"De acordo com o que assistimos na televisão," Mamãe diz, "você está morto."

Os olhos do homem reluzem, brilhantes demais.

"Eles me cobriram, Senhora. Me ajudaram a escapar, e então meu Tenente disse que era eu. Nós somos parecidos o bastante …" Seu rosto se comprime de dor. "Deveria seu eu executado hoje, Senhora. Não ele. Ele era um bom homem."

A expressão da Mamãe suaviza-se.

"Você é um testa de ferro," ela diz gentilmente. "Se você morre, também morre a rebelião."

Eu pondero sobre as palavras dela enquanto eles deitam o homem sobre a mesa. Ela apanha suas tesouras cirúrgicas e abre um corte na túnica do homem, expondo seu peito. Ao redor do seu meio, dois círculos carmesins vertem sangue através de uma bandagem branca.

"Preparar para ferimento à bala," Mamãe diz.

Eu fito, congelada, enquanto ela corta as bandagens, expondo o primeiro peito masculino que eu vi desde que tinha nove anos.

"Eisa?"

Eu me movo desajeitadamente, afobada enquanto faço os passos em minha cabeça para um procedimento cirúrgico sobre o qual já li, mas nunca executei de verdade. Eu preparo um par de pinças recém esterilizadas, várias agulhas curvadas, e uma simples linha de sutura preta que fora mergulhada em uísque e secada.

A Mamãe matraqueia termos médicos que eu compreendo, mas não consigo acompanhar muito bem. Ela enfia suas pinças cirúrgicas em uma das feridas. O homem grita. Os olhos dele tremulam enquanto ele desliza para dentro e para fora da consciência.

"Eisa?" ela diz. "Vê o fluxo sanguíneo?"

Ele ergue uma sobrancelha esperançosa. Mesmo agora, ela me testa.

"Está muito lento," eu respondo, "dada a extensão dos ferimentos dele."

"Qual é o seu diagnóstico?"

"Ele está perigosamente com pouco sangue."

"No braço dele," ela diz, "vai haver uma tatuagem. Abaixo dela deve ter o tipo sanguíneo dele."

Ela volta a cavar o abdômen do homem enquanto eu corto as mangas dele e exponho a tatuagem de rebelde. É uma estrela dentro de um círculo com uma águia no topo, um buldogue embaixo, um tubarão de um lado e um golfinho do outro. Eu sei que ela representa todos os cinco braços do antigo exército, mas é a primeira vez que eu a vejo. Ao lado da coleira do buldogue está marcado 'O+'.

"Ele é O positivo," Eu digo.

"Al-hamdu lillah!" Mamãe vira-se para Sadik. "Algum de vocês pode favorecer?"

Humnah diz, "Eu sou doadora universal."

Ela arregaça as mangas enquanto eu empurro uma agulha longa e grossa na veia dela, e então espeto a outra ponta no homem inconsciente. Sangue penetra na carne dele. Eu escuto com meu estetoscópio, esperando que sua frequência cardíaca se estabilize. Mamãe ergue a primeira bala, prensada entra as pinças.

"Eisa. Suture isso pra que eu possa pegar a outra."

"Mas eu nunca fechei um ferimento de bala antes," eu protesto.

"Você vai suturar muitos destes," ela diz. "Até os Ghuraba distorcem a fé deles quando Malak al-Maut vem para coletar as almas deles."

Eu apanho uma agulha da bandeja.

"Por onde eu começo?"

"Vê aquela torrente? Bem fundo no estômago dele?"

"Atingiu uma artéria?"

"A danificou," Mamãe diz. "Suture aquilo primeiro, ou ele vai continuar sangrando internamente."

Minhas mãos tremem conforme eu penetro dentro da ferida. É tão diferente de qualquer outro ferimento que eu já tenha visto, mas a carne dele queima ainda mais quente, como se gritasse: É um homem.

Os olhos de Lionel se arregalam, revigorados pelo sangue de Humnah. Eles são os olhos mais azuis que eu já vi, a cor do céu no verão, com raios de prata que irradiam através de suas íris como uma explosão estelar.

"Sinto muito, sinto muito!" Eu me desculpo enquanto pesco dentro da ferida.

Lionel faz uma careta, mas não grita de novo. Seus olhos são intensos enquanto eu vou mexendo por sob sua pele para encontrar a torrente. Ele me dá um sorriso grato, como que pra me tranquilizar.

"Estou sentindo!" Eu digo em fim.

"Bom," Mamãe diz. "Agora suture de volta."

Eu faço uma prece para acalmar meus nervos, e então pego a agulha curvada, recuando toda vez que Lionel recua.

"Alá, guie minhas mãos."

Eu recito o dua'a para cura enquanto dou cada ponto cuidadoso. Eu já estou atando o nó quando ouço a voz de Adnan. Mamãe e eu olhamos na direção da entrada, em pânico.

"Tranque-a! Rápido!" Mamãe silva.

A porta se abre antes que qualquer um possa se mover.

Na entrada, Adnan está em pé carregando um baú de madeira com mahr de dote. Atrás dele se encontra o General Rasulullah, sua barba ruiva asseadamente trançada, vestindo os trajes formais de uma cerimônia de noivado Katb el-Kitab. Atrás dele se encontram duas testemunhas, companheiros Ghuraba, para firmar legalmente a transação.

"Veja!" Adnan vocifera. "Eu disse que ela estava ensinado cirurgia para a Eisa. Não só como fazer partos de bebês."

O sorriso de Rasulullah some quando ele percebe que a pessoa na mesa não é uma mulher.

Sadik e Humnah procuram em baixo de suas roupas. Rasulullah é mais rápido. Ele coloca uma bala no peito de Sadik no momento que o homem saca sua arma. Mamãe grita. Um segundo Gharib atira em Humnah antes que ela possa jogar de lado sua abaya.

Eu fico parada num silêncio chocado enquanto os rebeldes deslizam para o chão. O sangue deles vazando numa poça enquanto Rasulullah avança na direção da mesa.

"O que temos aqui?" ele pergunta.

Mamãe se coloca entre eles, seus olhos ardendo dourados como uma águia protegendo o ninho.

"Eu não vou tolerar essa carnificina em minha clínica."

"Você não tem escolha."

Ele a põe de lado.

Lionel Everhart puxa sua agulha intravenosa e, com um gemido de dor, desliza para fora da mesa de operação para ficar de pé. Ele avança, colocando a mim e à Mamãe atrás dele.

"Não são elas quem você quer. Sou eu."

"Você achou mesmo que eu cairia naquele ardil?" Rasulullah escarnece. "Mandar seu tenente para morrer em seu nome?"

"Não se trata da verdade, mas da percepção," Lionel diz. "Você acabou de provar em rede nacional que o Abu al-Ghuraba é falível."

General Rasulullah coloca a arma na cabeça de Lionel. O homem não recua.

"Bem, então, já que você já está morto…"

"Não!" Eu grito.

Rasulullah puxa o gatilho. O cérebro de Lionel espirra por todo o meu rosto. O General mira a arma na Mamãe.

"Você conhece a pena por ajudar a rebelião."

"Eu sou uma médica," Mamãe diz. "Eu não escolho lados. Você sabe disso melhor que qualquer um, Major Eugene Mellville!"

Rasulullah coloca sua arma na cabeça da Mamãe. Ele usa o tambor para traçar a cicatriz que corre pelo lado do rosto dela.

"Mas você escolhe lados sim. Não escolhe, Maryam bint-Ali? Se não escolhesse, eu nunca teria conhecido o Abu al-Ghuraba."

Ele gesticula para os dois Ghuraba.

"Levem-nas."



Capítulo 5

Eles nos levaram para A Cidadela pouco depois de o Papai desaparecer. Os quartos eram mais novos na época, recém-pintados, não manchados de sangue. Eles nos fizeram esperar por três dias. E então a Mamãe voltou e disse que o Papai era um mártir.

Eu fito meu rosário, ainda enrolado em volta do meu pulso. Tufos rosa-acinzentados espiam dos pequenos buracos que laceiam as contas de tectito. Os miolos de Lionel Everhart. Eu estou coberta deles.

Eu começo a chorar. Por que Alá me odeia?

Eu toco os restos do homem que um dia guiou a rebelião. Eu ouvi rumores sobre ele. Sussurros. De que um dia, Lionel e seus rebeldes nos libertariam. Mamãe nos alertou a não começar qualquer conversa de sedição. A pessoa sussurrando rebelião normalmente é um agente Da Cidadela, tentando expor simpatizantes de rebeldes. Até pensar nisso e digno de decapitação.

E pensar que fomos pegos com um em nossa casa!

Eu desembaraço meu rosário e deslizo ele por meus dedos, extraindo forças enquanto faço minhas preces.

"La ilaha illa Allah. Eu seu que estás aí, Alá. Sei que podes ver minhas lágrimas. Sei que me testas …"

Eu rezo por Mamãe. Eu rezo por Nasirah e Adnan. Eu rezo pelo homem cujos miolos estão espirrados em meu rosário.

A porta se abre. General Rasulullah gesticula para que eu me sente. Ele puxa uma cadeira e se senta do lado oposto à mesa. Eu mantenho meu olhar abaixado para sua brilhante barba ruiva.

"Há quanto tempo sua mãe vem ajudando a rebelião?"

"Eu não tinha ideia…"

Ele bate o punho contra a mesa.

"Não minta para mim!"

Eu pulo.

"Esta foi a primeira vez que eu vi um rebelde."

Um longo grito agudo é filtrado pelo duto de ar. Rasulullah rosna.

"Foi isso que seu irmão disse."

Ele tamborila os dedos na mesa, uma mesa cinza e opaca com marcas de faca e manchas vermelho escuras. Ele assiste ao modo como eu aperto meu rosário toda vez que um prisioneiro grita. Seu comportamento muda, se torna quase lupino.

"Sob a lei, você não só pode condenada à morte, como também pode a sua irmãzinha."

Eu estendo a mão através da mesa.

"Por favor, não machuque a Nasirah!" Eu agarro a mão dele. "Ela não tinha nada a ver com isso."

A luz oscila. Os gritos nos dutos de ar se dissipam num gorgolejo patético.

Rasulullah assume um sorriso cruel.

"Há uma coisa que você pode fazer para provar sua inocência?"

"O quê?" Eu deixo escapar. "Eu farei qualquer coisa para provar que isso foi um engano."

"Eu sempre admirei seu pai," ele diz. "Ele nos deu a chave para o arsenal nuclear dos Estados Unidos."

Eu o fito, confusa.

"Meu pai morreu como um mártir pela causa."

"Sim, é claro." Rasulullah parece incomodado. "Mas antes que eles deem suas vidas, a maioria dos mártires gostam de resolver suas questões."

Ele se levanta e caminha até o espelho duplo, me fitando pelo reflexo.

"Eu sempre me perguntei—" ele continua "—ele lhe deu alguma coisa? Um pedaço de papel. Uma lembrança? Algo sentimental que tenha uma história por trás?"

Eu passo os dedos em meu rosário.

"Ele não nos deu nada. Num dia ele estava lá, e no dia seguinte ele se foi."

Rasulullah bate no vidro. A porta se abre. Adnan entra, flanqueado pelo Abu al-Ghuraba. Ele caminha rigidamente, os olhos avermelhados de chorar.

Rasulullah curva sua cabeça. "Pai dos Forasteiros."

O Abu al-Ghuraba toca Rasulullah na cabeça.

"Que a paz esteja convosco, meu Mahdi."

Eu estendo a mão para Adnan para confortá-lo. Ele me afasta e se vira para o General Rasulullah.

"Irmão?" Há um tom esperançoso em sua voz.

"É tarde demais para fazer alguma coisa para ajudar sua mãe," Rasulullah diz. "Se o homem não fosse um rebelde, eu teria simplesmente açoitado ela. Mas ela estava fazendo algo bem pior que praticar medicina. Você entende isso, não entende?"

Adnan dá um fungada. "Sim."

O Abu al-Ghuraba gesticula.

"Nós não temos escolha. Ela será apedrejada amanhã, ao meio dia."

"Não!"

Eu me jogo em Adnan. "Como pôde fazer isso? Como pôde trair nossa mãe!"

Adnan me dá um tapa no rosto.

"Eu fiz o que tinha de fazer para manter você e Nasirah vivas!" Ele se vira para Rasulullah. "Então, ainda temos um acordo? Eu vou agir como wali?"

Rasulullah faz o gesto de uma prece.

"Nosso Pai sancionou o contrato pessoalmente. Eu me casarei com as duas, imediatamente após o apedrejamento."

Leva um momento para assimilar o que ele disse.

"A-As duas?" Eu fito Adnan. "Mas Nasirah só tem nove anos!"

O Abu al-Ghuraba balança sua mão.

"O Profeta consumou seu casamento com Aisha quando ela tinha apenas nove anos." Ele espremeu o ombro de Adnan. "Explique a ela, filho."

Ele e Rasulullah deixam a sala. Aquela sensação pesada de opressão Alivia-se só levemente. Adnan cruza os braços.

"Explicar o quê?" Eu sussurro.

"Eles exigem que você dê uma demonstração pública de inocência," ele diz.

"Que tipo de demonstração?"

"Ele insiste que você atire a primeira pedra."


Capítulo 6

Eu me encontrei aqui uma vez, no dia em que anunciaram que meu pai era um mártir. As câmeras nos filmaram, três crianças órfãs, e a viúva do Guardião enquanto ela contava a eles que ele havia dado o controle dos mísseis ICBM ao Ghuraba.

Um guarda me cutuca nas costas com sua metralhadora.

"Tire seu hijab. O Abu al-Ghuraba quer que o povo veja seu rosto."

Eu desprendo o véu do meu rosto e me viro para Nasirah.

"Não tenha medo. Adnan vai nos proteger."

É uma pena que a primeira viagem dela para fora desde que ela tinha dois ano seja para cá. Eu fito o estranho que segura o braço dela como um camundongo pego nas presas de uma serpente. Ele com certeza parece com meu irmão. Alto e desajeitado, a imagem cuspida de nosso pai. Ele fita as câmeras enquanto elas projetam sua imagem nas telas de vídeo que flanqueiam o campo de execução.

Um imame ascende aos degraus, cantando um dua'a sobre traição. Eu rezo pra que as coisas terminem diferente desta vez, que pessoas o bastante que devam suas vidas à Mamãe talvez se recusem? Meu estômago se aperta conforme eles correm para as pilhas de pedras colocadas ao redor do campo e apanham pedras do tamanho de punhos.

A multidão fica em silêncio quando o Abu al-Ghuraba ascende aos degraus. Ele move-se cuidadosamente ao pequeno ponto laranja que marca o local onde o microfone irá captar sua voz.


Continue reading this ebook at Smashwords.
Purchase this book or download sample versions for your ebook reader.
(Pages 1-43 show above.)