Excerpt for ARCADAMIUS 2 - Reconquista by , available in its entirety at Smashwords




Edward Warrior





ARCADAMIUS

RECONQUISTA





A batalha em defesa da Terra estava ganha! Uma parte da população salva, mas ainda havia um objetivo a cumprir e exterminar o inimigo!











1ª edição




Rio de Janeiro – RJ

Edição do Autor

2016

Edição do Autor


Título original: ARCADAMIUS RECONQUISTA


ISBN 978-85-919815-8-8


Formato: E-Pub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-919815-8-8 (recurso eletrônico)


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Copyright © 2016 – 919815



1 – Arcadamius - Actuna de Toris

2 – Arcadamius - Reconquista

3 – Arcadamius - Retaliação

4 – Arcadamius - Elora Solaris



























A vantagem estratégica desenvolvida por bons guerreiros é como o movimento de uma pedra redonda, rolando por uma montanha de 300 metros de altura. A força necessária é insignificante; o resultado, espetacular.” Sun Tzu

PREFÁCIO



Os invasores Arcadamianos pensaram que erradicar a humanidade de Actuna de Toris no Sistema Solar de Ondenbar seria uma tarefa tão simples como todas as outras civilizações que já haviam extinguido e dos planetas que ocuparam para terraformação e adaptá-la ás suas necessidades. Porém, não contavam que os Invisíveis, aqueles não tinham conhecimento de sua existência e acreditavam que estavam sozinhos no universo, se rebelassem contra os opressores vindos dos confins do universo.

Riley O’Connor tinha perdidos tudo o que amava e estava á deriva na órbita de Saturno e pelo espaço sideral, apenas na companhia de Samuel Thorne aplacava sua ira e tristeza. Na Terra a milhões de quilômetros de distância, Chris Raines que fora deixado para trás faria de tudo ao seu alcance para que pudesse resgatá-la. Em seu coração tinha a certeza que em algum lugar do no espaço lá fora, Riley a quem amava, ainda vivia.

Mas nada seria tão fácil! Após a invasão de 2022 a civilização se dividiu em quatro quadrantes e cada um deles tinha interesses diferentes do outro, o que tornava a missão de resgate mais complexa e difícil, mas não impossível. Anne Thompson daria o apoio necessário para que o marido não perdesse as esperanças, ainda que nem todos tivessem voltado para casa.

Dois sextos da população mundial estavam desaparecidos junto com Riley e Sam, supostamente entre eles os pais de Chris e de Anne, e antes que caíssem nas mãos dos invasores, precisariam arranjar outra solução, os quadrantes não os queriam de volta por excesso de contingente e pânico coletivo, ao mesmo tempo, não podiam ficar para sempre adormecidos vagando pelo universo.

A espaçonave terrestre Vortex faria uma viagem para um lugar longínquo com destino incerto, mas ao final da missão tinham a certeza que seriam recompensados de uma forma e penalizados de outra. Os tripulantes estavam preparados para tudo o que pudessem imaginar, mas jamais para o que encontrariam a bordo da Nave Mãe. Aquilo estava muito além do que podiam supor ser possível em momento algum.

Ao final de vinte anos o encontro entre eles não tinha sido como esperado e nada mais seria como antes. Os corações estavam irreparavelmente partidos ou feridos, mas o tempo se encarregaria de soldá-los no lugar adequado novamente. Só não sabiam se teriam esse tempo.

Finalmente, quando ficaram prontos para fazerem os preparativos do confronto, nem todos poderiam participar da batalha final que seria travada em duas frentes distintas, a primeira na Terra e a segunda em Arcadamius todas em tempos diferentes. Em todo o caso o destino se encarregaria de colocar as coisas no devido lugar. O mais provável era que Riley O’Connor e Chris Raines nunca mais voltassem a se encontrar.

O amor entre eles só poderia sobreviver se continuassem separados por todo um gigantesco universo.



























Eu sou Sun Tzu! Aníbal Barca! Sou Alexandre no seu melhor momento, Leônidas defendendo a Grécia! Eu sou Helena de Troia e Maria Madalena! Tenho milhões de anos de vida selvagem em meu sangue e milhares de guerras incontidas dentro de mim! Sou o animal que fareja a caça e o caçador que não se deixa enganar! Sou o que há de melhor da raça humana e de pior dentre ela! Vocês podem ter sido o começo, mas eu decidirei o fim! Hoje eu sou a melhor esperança de minha raça e não pretendo decepcioná-los!” Riley O’Connor.

Capítulo I

Retorno a Malahide

Passara-se um ano completo desde que os Sinos extraterrestres e que armazenavam no interior os Casulos contendo a humanidade capturada num único dia, haviam pousado sobre a superfície do planeta perdendo a sustentação gravitacional em órbita da Terra. Chris Raines ainda tinha esperança que Riley O’Connor estivesse em algum dos que estavam espalhados pelo globo e que pudesse ter “caído” num lugar remoto do planeta, porém com tão longa espera isso já parecia impossível.

Continuou seguindo as ordens de sua comandante ainda que ausente, não deixaria que o Mundo Novo, pós Apocalíptico, se tornasse uma selva maior do que já tinha ficado por conta da ausência imediata de civilização. Os capturados que saíam dos Sinos tiveram muita dificuldade em compreender o acontecido e mesmo tendo-lhes dito que deviam suas vidas a Riley O’Connor, jamais acreditaram que uma menina tão jovem pudesse conseguir um feito tão grandioso. Era apenas um mito.

Passaram a chamar grupo ao qual pertenciam de Alcatéia e o dessa forma se intitulavam Lobos, depois que perceberam que só poderiam contar com eles mesmos e seu histórico de bravura, continuavam unidos como nos primeiros dias tão difíceis e que agora pareciam apenas uma lembrança de um mundo há muito tempo já esquecido. Somente eles sabiam a verdade, os outros apenas supunham que a verdade pudesse ser outra.



Fizeram planos de trilhar um caminho inverso ao que tinham seguido para chegar a Dublin, já que aparentemente os objetos alienígenas possuíam um sistema de posicionamento global, era de se supor que pousariam exatamente nos locais onde fizeram a captura dos humanos. Dessa forma esperavam encontrar os familiares desaparecidos, cientes que dois sextos dos Sinos tinham se evadido da atmosfera e possivelmente regressado para a Nave Mãe, mas isso seria só uma suposição aceitável caso fosse verdadeira. O caminho para Malahide seria longo e tortuoso repleto de lembranças dolorosas de outros tempos.

A cadeia de comando continuaria da mesma forma que ele havia definido no inicio; Robert Parks o segundo em comando e Sônia Lemann formaram um casal logo que ele pousou em terra firme, saindo do estranho objeto e com notícias tão vagas sobre Riley e Sam; “– Riley disse que ficaria bem e que sempre o amaria Chris...” – tinha recebido o recado dela nas palavras de Robert e Sônia que presenciara todo o esforço feito pelos amigos recentes, deixando para trás amores latentes e sacrifícios impossíveis, rendeu-se àquilo que a humanidade tinha de melhor, o amor verdadeiro. Em sua opinião isso seria motivo suficiente para fazer valer a vida ser vivida. Mas em sua mente Chris jamais esqueceria o recado recebido.

Foram designados para permanecer em Dublin numa posição estratégica de recrutamento de outros que pudessem servir á causa, que agora não era apenas um problema irlandês, mas global e tomaria proporções infinitas se o comandante levasse adiante o plano de resgatar Riley O’Connor e Sam Thorne onde supunha que estivessem, a bordo da Nave Mãe, em algum lugar ainda no Sistema Solar a caminho do planeta invasor.

Dispersar o grupo era um método de dificultar a captura caso houvesse uma nova investida de abdução, por outro lado os governos da Nova Ordem viam os grupos independentes como sendo uma ameaça ao seu poder de controle de massas na imposição da Lei Marcial, agora vigente.

Tommy Mulligan tinha se tornado um soldado exemplar em apenas um ano, nada lhe escapava ao olhar, nem mesmo os atributos da bela Rebecca Thompson, que havia se recuperado totalmente e não mais seria uma vítima dos “vampiros”, os humanos de Joshua, que drenaram seu sangue para que vivessem. Rebecca podia-se vangloriar de ter a seu lado agora o melhor guerreiro de todos entre os que haviam iniciado a Alcatéia e mesmo que a diferença de idade entre eles fosse pequena e invertida, ela sendo mais velha que ele três anos, Tommy tinha se tornado um homem antes do tempo. Lucan seria seu ponto base em dois quartos do caminho. Era o mesmo caso de Robert e Sônia que ficariam em Dublin, aparentemente o mundo estava realmente muito mudado.

Bobby Flanngan e Lionel O’Malley tornaram-se os melhores amigos, nesse aspecto a proximidade etária tinha-os ajudado e providenciado um empurrão para que os dois formassem a melhor dupla de vigilância que poderia existir em qualquer tempo, chegaram a criar um código específico de comunicação entre eles que muito dificilmente outros perceberiam. Isso permitiu que a Alcatéia tivesse dias melhores.

Dessa forma as noites também acabaram por ficar mais tranquilas e menos pavorosas todas as vezes em que alguém se aproximava, e eram muitos os “desgarrados” que procuravam se juntar a grupos que combatiam os invasores, mesmo que jamais tenha havido qualquer batalha nesse sentido e que não fossem mais uma ameaça iminente. Sua designação estaria em Blanchardstown, três quartos do caminho para Malahide, para onde rumariam.

Ele, Chris Raines, como sendo o comandante devidamente nomeado pela comandante suprema agora desaparecida junto com seu protetor e amigo em batalha, seguiria para o lugar de onde viera e onde tinha nascido. Imaginou por alguns instantes se seria prudente voltar para casa, de onde tinha tantas lembranças de sua amada Riley, mas não tinha como fugir do destino e era bem provável que os pais dela tivessem voltado já há muito tempo e até ao momento não tivessem recebido notícias da filha desaparecida. Ele mesmo não sabia onde seu paradeiro.

Não obtiveram muito sucesso em descrever para o novo governo estabelecido na Irlanda, que tinham feito resistência contra a invasão Alien e que todos os que haviam sido resgatados deviam suas vidas aos esforços que eles fizeram e dos que ainda continuavam desaparecidos. Ainda que não acreditassem no ocorrido, não souberam explicar por qual motivo a informação recebida de que somente os AB- Negativos, também conhecidos como Invisíveis, não tinham sido capturados. Isso seria outra história e bastante longa para contar, mas aconteceria invariavelmente em algum tempo que fosse necessário. Um dia a verdade viria à tona.

A seu lado estava Anne Ridley com quem mantinha um relacionamento amoroso assim que perceberam que Riley não voltaria para casa e que estariam sozinhos. Anne estava cumprindo exatamente o acordo que fizera cuidando agora de seu amado Chris, que outrora não lhe pertencia por direito, mas quis o destino que as coisas entre eles fluíssem de uma forma jamais vista. Poder-se-ia dizer que se amavam por força das circunstâncias.

Havia um misto de amor e compaixão, ambos precisavam um do outro para esquecer o passado e o que havia começado com um esforço de tolerância, acabou por se tornar paixão repentina e posteriormente um amor calmo e sereno. Não passava um dia sequer em que não pensassem no que e quem tinha ficado para trás, mas também não faziam mais disso a razão de viverem.

Adotaram Samantha Thorne, que tinha ficado sob a responsabilidade de Anne a pedido de última hora de seu irmão Samuel antes de desaparecer levado pelo funesto raio azul turquesa junto com Riley. Samantha compreendeu que o sacrífico deles tinha sido necessário e que um dia voltariam, afinal como Anne mesma tinha lhe dito, Sam a amava mais do que tudo na Terra e não a deixaria para trás sob hipótese nenhuma, mas no momento, estava numa missão muito importante e secreta para descobrir onde os invasores moravam. Na tenra idade que tinha, onze anos agora, foi o suficiente para que renovasse suas esperanças por um tempo indefinido e era o que eles no momento precisavam.

Samantha saberia esperar o tempo que fosse necessário, afinal só tinha a ele de familiar vivo ainda que desaparecido, seus pais tinham perecido durante a invasão, além de Rex o Ladrador claro, mas este só estaria sob seus cuidados a pedido de Riley, a comandante e assim que ela chegasse o devolveria conforme acordado. Mas quando esse dia chegasse sabia que sentiria falta de seu pelo macio e do latido forte que fazia tremer seu coração dentro do peito, sem falar dos pés aquecidos durante a noite sobre os quais ele sempre dormia.

- O plano é o seguinte! – Chris reunira todo o grupo principal e lhes mostraria a estratégia que tentaria colocar em prática nos próximos meses, talvez anos caso não obtivesse o apoio imediato necessário. – Vamos chamar de Plano Phoenix! Assim como a mítica ave que ressuscitava das cinzas, nós vamos resgatar os nossos amigos desaparecidos e provar para o mundo que somos mais capazes do que querem nos fazer parecer! – falava com a firmeza que aprendera de forma árdua e sofrida. – Alguma dúvida? – ainda olhava para todos os presentes.

- O que vamos fazer exatamente comandante? – Bobby que não perdera o hábito de levantar a mão foi o primeiro a inquirir seu chefe no novo intento.

- O que vou dizer aqui e agora não poderá sair desta sala! Se eu descobrir alguém que tenha dado com “a língua nos dentes” eu mesmo me encarrego de dar fim à sua vida! – olhou firmemente para cada um dos presentes – estamos entendidos? – esperou uma resposta imediata como era seu costume.

- Entendido comandante! – ouviu em uníssono.

- A primeira coisa que precisamos fazer é estabelecer a cadeia de comando ao modo dos antigos e para isso cada um de vocês precisará ter sob seu próprio comando direto doze soldados, esses soldados deverão recrutar outros doze cada um e assim exponencialmente! – fez uma pausa para ver se todos compreendiam.

- Uma coisa importante! Vocês serão responsáveis apenas pelos doze que recrutarem diretamente, não existem meios de controlar grandes pelotões de forma eficiente se tivermos que resolver os problemas dos recrutas na base da pirâmide, portanto, essa regra se perpetua pelos demais! – sabia que sua estratégia funcionaria muito bem desta forma, já a tinha testado em sua mente meses a fio.

- Isso é como uma escada não é comandante? – Tommy que sempre fora muito esperto tinha captado a mensagem com rapidez, poderiam ter milhares de soldados divididos em células de doze mais um, que seria o capitão de grupo e quando precisassem se reunir para as intervenções que se fizessem necessárias não teriam dificuldades de mobilização.

- Sim! Eu sou o topo da pirâmide, vocês estão logo abaixo de mim e o restante virá seguidamente e sem muito esforço! – estava satisfeito que alguém estivesse entendendo o que propunha.

- Isso será a Primeira Fase! Como somos proibidos de fazer grandes reuniões por causa da Lei Marcial, desta forma conseguiremos nos organizar para a Segunda Fase! – que ele não tinha intenção de explicar no momento.

- E como faremos para que sejamos identificados entre nós comandante? – foi a vez de Robert se manifestar.

- Faremos isso com um aperto de mão que parecerá simples, mas que nos identificará imediatamente! – chegou perto dele e estendeu-lhe a mão com os dedos separados em pares ao meio, o indicador com o dedo médio, assim como o anelar com o dedo mínimo. – Faça exatamente como eu e encaixe sua mão na minha, verá que combinam perfeitamente! – isso finalizava sua explicação.

- Isso é muito bom! Funcionou perfeitamente! – Robert estava admirado por Chris ser tão engenhoso em assuntos estratégicos, em algum momento poderia se tornar um líder respeitado por toda a Irlanda, senão por todo o planeta, só precisava de uma oportunidade para provar seu valor.

- Amanhã partiremos e nos distribuiremos conforme o plano que traçamos! Estarei em Malahide nesse período em que recrutamos novos membros e nos preparamos para a Segunda Fase! Mais alguma pergunta? – encerrava em definitivo a reunião na ausência de questionamentos.

- Se tiverem sorte, reencontrem quem deixaram para trás enquanto estavam sob o meu comando neste último ano, recuperem o tempo perdido, mas não se esqueçam de que temos uma missão! – Ele mesmo queria rever o lugar onde morava em Seapark e com um pouco de sorte seus pais também. Virou-se para Anne que adorava ouvi-lo falar e seguiram para os aposentos que tinham dividido nesse período em que estavam juntos, numa residência requisitada por eles depois que precisaram desocupar o Hotel Dublin. Para Chris, sua lembrança mais intima, ainda estava no quarto que ficava no segundo andar e onde regularmente olhava a malha reticulada no Céu á procura de seu amor perdido...

A caminhada para Malahide não seria menos difícil do que a que tinham feito anteriormente, no inicio da jornada em direção a Dublin. O apagão tecnológico permanecia como sendo uma realidade assustadora, os pulsos eletromagnéticos sucessivos tinham penetrado profundamente no planeta e danificado permanentemente todos os tipos de dispositivos, fossem eles móveis ou não.

O governo estabelecido preocupava-se em desobstruir as estradas de acesso assoladas de veículos e reciclar todo o material que agora impedia que as vias tivessem livre circulação. Apenas os militares oficiais usavam transportes alternativos e que não dependessem de qualquer tipo de circuitos elétricos ou eletrônicos. Durante a primeira semana, aos poucos, a Alcatéia foi se repartindo e ocupando os lugares designados por seu comandante, estafetas que fariam a ligação a pé ou de bicicleta entre eles se encarregariam de manter a comunicação funcionando e ativa.

O último lugar em que chegaram seria também o mais difícil, pelo menos para Chris Raines. Não muito ao longe podia divisar as casas e ruas do Seapark, em breve estaria entrando em sua casa e onde tinha vivido na companhia dos pais por toda a vida antes do fatídico evento. Esperava que não tivesse sido ocupada por uma nova “família”, referiam-se assim aos novos grupos familiares que o governo recompunha pela vasta quantidade de pessoas que perderam seus entes queridos e precisavam ser reagrupados em famílias provisórias. Dessa forma, também eram mais fáceis de serem quantificados, qualificados e controlados há distância. Eram outros tempos agora e muito difíceis.

Aproximou-se com cuidado, ainda portava seu rifle Remington 700, tinha sido uma concessão especial ao seu grupo por serviços prestados na formação da Nova Ordem, ainda que ele não aprovasse as diretrizes de desarmamento, mas achou melhor não questioná-las de momento, estava em suas mãos apontando para a porta da frente. Anne a seu lado dava-lhe cobertura com a Glock 380 que mais de uma vez já a salvara e que ela aprendera a usá-la como se fosse parte de seu próprio corpo.

Ainda que talvez não precisasse puxou um molho de chaves do bolso e enfiou uma específica na fechadura da porta, que torceu e ouviu o barulho de destravamento, o acesso ao seu interior agora era livre. Foi o primeiro a entrar, Samantha e Rex estavam do lado de fora e Anne na varanda encostada á parede da casa com a pistola na mão. Depois de alguns minutos voltou com o rifle abaixado e mesmo que não estivesse sorrindo demonstrava contentamento em estar finalmente em casa, a sua casa.

- Venham, entrem para que possam ficar mais há vontade! – abriu a porta totalmente para dar passagem ás companheiras. – De hoje em diante esta será a nossa casa! – deixou-se cair no sofá da sala onde muitas outras vezes tinha adormecido, ou apenas conversado com seus pais e amigos.

- Acha que seus pais estiveram aqui? – Anne foi a primeira a tocar-lhe a ferida ainda aberta e fazê-la sangrar por completo. O assunto tinha sido recorrente durante a viagem de retorno e havia grande expectativa que todos pudessem se reencontrar. No caso dela, não contava com isso, saíra de casa muito antes da invasão.

- Não, não estiveram... – pegou na mão da mulher que lhe era tão preciosa agora e beijou-a em sinal de respeito e de dívida.

- Como pode ter tanta certeza, Chris? – ela ainda considerava que poderiam ter ficado ali por breves momentos e assim como o amado ao seu lado e que tão carinhosamente lhe beijava a mão, estariam á procura do filho desaparecido. Afinal era bastante razoável supor que ele tivesse sido capturado também.

- Simples! Está tudo como deixei da última vez! Ninguém passou por aqui neste ano inteiro que fiquei fora! - Rex saiu em disparada para a rua.

- Bem, e que tal me mostrar sua casa! Nossa casa agora até precisarmos sair! – Anne sorria pela primeira vez por ter uma família como sempre sonhara, até a pequena Samantha se encaixava nesse imenso quebra cabeças como uma peça única e agregadora. Por causa dela tinham sido mais felizes enquanto estavam juntos.

- Onde está Samantha? – ela percebeu que sua distração repentina talvez lhe custasse caro, odiava quando isso acontecia. Ainda viviam num mundo cruel e nem todos da raça humana mereciam ter sobrevivido, isso ela tinha a certeza. Saíram para a rua no mesmo momento em que alguém chamou por seu namorado.

- Chris! Chris Raines! – ele olhou para o lugar de onde partiam os gritos á sua procura, pronunciando seu nome em alto e bom som. Um homem estava segurando a coleira de Rex e a mão da pequena e frágil Samantha.

- Senhor O’Connor! – Chris abriu um largo sorriso ao ver um rosto conhecido desde a infância e depois de tanto tempo. Nora O’Connor afastou-se do marido e corria agora em sua direção. Tinha esquecido totalmente que essa possibilidade pudesse vir a acontecer, esteve tão absorvido pelos próprios problemas que ao encontrar os pais de Riley não lhe passou pela mente, em momento nenhum, que certamente estivessem esperando notícias da filha. Caberia a ele contar-lhes a verdade.

- Que bom vê-lo meu rapaz! – Brian O’Connor abraçou-o como se fosse um filho querido que não via há muito tempo. – Riley está com você? – sabia que estavam juntos quando da última vez que os tinham visto ainda dentro de casa, na sala de estar. Nora passou por ele ainda correndo em direção á jovem mulher que saíra da casa dos Raines, mas na medida em que se aproximava seu passo diminuía até que se deixou cair de joelhos ao perceber que não era sua filha. Anne aproximou-se para confortá-la.

- Acho que precisamos conversar senhor O’Connor... – caminhou em direção ás duas mulheres para ajudar Anne com a mãe de seu amor perdido. – É uma história muito longa de amor e ódio, coragem e perseverança e sua filha Riley é a protagonista dessa história! – Chris falava sério e com a competência de um narrador, que não só vivera todos os momentos ao seu lado, como também fora coadjuvante.

Sentaram-se na sala de estar da casa dos O’Connor e onde tinham se visto pela última vez, Rex foi-se deitar no tapete ao centro onde sempre costumava ficar fazendo companhia para sua dona. Samantha estava ansiosa para ouvir a história que Chris e Anne contariam novamente, já a tinha ouvido dezenas de vezes, mas não se cansava, porque ela mesma fazia questão de relembrar pequenos detalhes que passavam despercebidos, como a vez em que Riley salvou Samuel, seu irmão, de ser levado pelos Scanners deitando-se em cima dele.

Fazia questão de lembrar-se dessa parte, Riley tinha salvado a pessoa que ela mais amava no mundo e que agora era a única de sua família que lhe restara. Chris, não gostava muito de comentar esse episódio por motivos óbvios e pessoais, mas a pequena Samantha se encarregaria de lembrá-lo pelo resto da vida.

- Depois que acordámos, percebemos que vocês tinham desaparecido e não vimos mais ninguém... – Chris começou sua narrativa tentando explicar todo o ocorrido passo a passo, sem omitir nada, talvez não lhes contasse tudo o que tinha acontecido entre os dois, lembrou-se de Riley trocando de roupa no quarto rosa e a visão arrebatadora de seu corpo esbelto e curvilíneo. Também deixaria de fora o que acontecera inclusive dentro do provador da loja do Shopping, muito menos lhes falaria do ocorrido no quarto no segundo andar do Hotel Dublin, mas se alguém tinha o direito de saber o que de fato aconteceu, eram os pais da figura principal dessa história e salvadora de toda a humanidade reminiscente.

A razão de todos estarem ainda ali na Terra e vivos era a incrível perseverança de Riley O’Connor e claro, Samuel Thorne...

A Nave Mãe

No momento em que Riley percebeu que não conseguiria voltar para a Terra e seu amado Chris, entendeu que precisava colocar outro plano em prática, mas de momento não tinha nenhum. Não chegava a ser uma falha estratégica a investida que tinha feito para salvar a humanidade de ser transportada para os confins do universo, mas é que efetivamente nunca pensou na possibilidade de poder regressar a seu planeta com vida.

Desembaraçou-se dos braços de Sam que a tentava confortá-la abraçando-a por trás enquanto via a Terra se afastar no horizonte espacial. Muito em breve estariam tão longe que nem o próprio Sol, Toris como aqueles invasores o chamavam, estaria ao alcance da visão. Achou interessante perceber que tinha decorado os nomes alienígenas para os astros que conhecia, sempre tivera facilidade de memorização. Actuna/Terra, Aktanis/Marte, Rex a Lua... Sistema de Ondenbar. Lembrou-se de seu Labrador e sentiu saudades de casa.

Olhou para Sam e mais uma vez pensou se tinha feito a coisa certa afastando-o da irmã tão pequena e frágil deixada á própria sorte, por outro lado confiava cegamente em Chris e se ele não pudesse protegê-la, ninguém mais naquele planeta o faria. Sorriu discretamente lembrando-se dos momentos íntimos que tinha passado com e da decisão de se entregar num momento tão delicado de suas vidas, mas também jamais passou pela sua cabeça morrer virgem. Isso nunca fora uma opção e de qualquer forma já havia acontecido e a ideia de permanecer intocada descartada.

- O que acha Sam? – olhou para o amigo que tentava adivinhar seus pensamentos. – Em pouco tempo e se vierem reforços, muito em breve sairemos do nosso Sistema Solar. Estaremos a caminho de Arcadamius, o planeta invasor e acho que não vamos gostar nada do resultado dessa viagem quando chegarmos lá! – encostou-se á parede metálica e negra atrás de si.

- Os sistemas antigravitacionais ainda estão funcionando, é o que faz esta nave gigantesca se deslocar pelo espaço sideral em direção de casa! Mas no momento estamos navegando vagarosamente! – ele sabia que havia outras coisas a considerar. – Os sistemas inerciais estão operacionais, se não fosse por isso acabaremos mortos na superfície de Júpiter ou de Saturno e ainda temos aqueles humanoides para cuidar... – Cruzou o rifle sobre os braços deixando-o num aposição confortável.

- E isso quer dizer? – ela era boa em muitas coisas, mas adivinhações daquele tipo decididamente não eram seu forte.

- Que como sabemos, o tempo passa diferente aqui dentro e lá fora... Pelo menos se os sistemas gravitacionais estiverem operacionais! – essa era sua maior preocupação, caso um dia saíssem dali com vida era bem capaz de reencontrar a irmã numa condição de idade muito mais avançada do que ele, ou mesmo já extinta. Lembrou-se de Samantha pela primeira vez desde que saíra da Terra. Não gostava dessa ideia aterradora.

- Sim, tinha me esquecido desse detalhe... – ela reconsiderou que a ajuda dele realmente era inestimável. Tê-lo encontrado pelo caminho para Lucan mostrou-se muito providencial, mesmo que tenha custado a vida de seus pais. – Alguma ideia? – estava disposta a arriscar qualquer coisa que ele sugerisse. Acima de tudo confiava em Sam da mesma forma que ele havia confiado nela mesmo sem saber qual seria o desfecho dessa história e deixado para trás tudo o que amava. Ou não, talvez tivesse seguido seu amor...

- Devíamos arranjar uma forma de parar definitivamente este negócio... – era a melhor possibilidade que poderiam ter enquanto ainda estavam em território conhecido – e como disse antes, ainda que não seja muito, temos duas granadas sobrando! – sacudiu a bolsa que ela lhe dera para carregar.

- “A suprema arte da guerra consiste em vencer o inimigo sem ter que enfrentá-lo.” – lembrou-se de Sun Tzu e os ensinamentos de seu pai. Ganhara o livro sobre o general chinês que teria vivido em meados do século V a.C no aniversário de dez anos, gostou de seus ensinamentos, por isso leu-o mais de uma vez. Ela mesma se encarregaria pessoalmente de apresentar as recomendações do general para os invasores. - Tem razão Sam! Precisamos por um fim nisto! – aprumou-se para tomar uma decisão. – Sam, aquilo ali é Aktanis? – perguntou para seu companheiro de viagem.

- Aktanis? Mas de que diabo você está falando? – olhou para fora enquanto passavam próximos do planeta vermelho que ele conhecia como Marte. Com certeza estavam viajando a uma velocidade incrível para os padrões terrestres e no mais absoluto silêncio.

- Desculpe Sam! Estou me obrigando a pensar como o inimigo e por isso às vezes confundo as coisas! – apontou para o planeta vermelho. – Então, aquilo é Marte ou não? – só precisava da aferição dele que conhecia astronomia melhor do que ela com toda a certeza.

- Sim, Marte! – aproveitou para olhar em volta para ver se não seriam surpreendidos de alguma forma pelas criaturas humanoides e nem sabiam ao certo se haveriam mais do que os que tinham visto na suposta sala de controle.

- O que vem antes dele na sequência orbital até ao Sol? – sabia, mas uma segunda opinião era sempre bem vinda. Considerá-lo-ia a partir daquele momento seu especialista em cosmologia.

- Júpiter o grande gigante e depois Saturno com seus anéis de gelo! – essa parte era fácil, até Samantha saberia. Lembrou-se novamente da irmã. Tinha certeza que estava em boas mãos.

- Bem hora de trabalhar e pensar em algum plano para que esta coisa pare de se deslocar pelo espaço e pelo que você disse pelo tempo também! – estendeu a mão para que ele a pegasse. – Além disso, tenho a sensação de estar morta de fome e de sede, precisamos fazer alguma coisa quanto a isso também! Deve haver uma solução para não morremos à mingua! – Riley deixou os dois pentes vazios das pistolas no chão, não precisaria mais deles naquelas condições e correram novamente para o centro do controle de comando, de onde tinham saído, para verem o estrago que tinham causado.

Os danos na sala de comando da grande nave alienígena não tinham sido tão extensos como haviam previsto o que explicava o motivo pelo qual ainda se deslocavam pelo espaço afora. Havia duas possibilidades neste caso, uma seria expandir os danos até que a Astronave parasse completamente, mas corriam o risco de ficar à deriva por toda a eternidade com dois bilhões e meio de seres humanos a bordo e se precipitarem sobre um dos planetas gigantes.

A segunda hipótese seria deixar que a nave percorresse a longa jornada para casa e chegando lá aplicar um plano de emergência que funcionasse, até lá poderiam ter tempo para planejá-lo, mas isso não parecia muito acertado em termos estratégicos, era quase certo que estariam á mercê dos invasores que queriam prepará-los para a próxima refeição. E nem saberiam que idade teriam ao chegar lá, talvez já estivessem mortos nesse meio tempo.

- Então Sam? –olhou para o amigo ainda se recompondo da pequena corrida que fizeram para chegar ali. Desta vez não tinham tanta pressa, mas a distância lhes impunha certa urgência em tomar uma atitude.

- Veja Riley, estão todos mortos! – Sam apontou para o chão enquanto recuperava o fôlego, tinha um porte atlético e estava acostumado a exercícios físicos extenuantes, mas as atividades da última semana quase o tinham exaurido por completo.

- O que acha que aconteceu? – ela ainda não tinha visto a cena por completo, interessava-se mais em olhar para o enorme buraco que tinha feito no piso luminoso e que aparentemente controlava todo o complexo da nave estelar, era isso que era! Uma nave estelar!

- Gases tóxicos talvez! Não vejo sinais de grandes ferimentos por causa das explosões! – aproximou-se mais ainda para que pudesse examinar melhor os corpos humanoides, estava curioso a seus respeitos.

Riley percebeu pela primeira vez que havia outros portais no chão, confundiam-se com o próprio piso e deveriam levar aos andares inferiores, todos utilizavam rampas que outrora deveriam estar iluminadas por esse motivo não as tinham visto, nem como rota de fuga, mas agora seria diferente, explorariam toda aquela nave que raptara sua raça, sua gente, para saber mais sobre o inimigo. Seria uma aluna bastante aplicada nesse sentido.

- Não podemos descartar a hipótese de haver outros como eles andando por aí, afinal isto aqui deve ter um sistema de manutenção muito complicado! – olhava para seu companheiro na viagem incerta, para saber sua opinião. – Além disso, Sam, não temos absoluta certeza se conseguiram enviar algum tipo de mensagem para seu planeta e se estarão vindo reforços ou mesmo se estarão nos esperando para algum tipo de retaliação!

- Seria uma possibilidade, mas eu não contaria com isso a menos que exista um sistema automático idêntico a este que colocou a nave em rota para casa! – começou por descer uma das aberturas no chão que levava ao andar inferior. – Mas precisamos tomar uma decisão tão logo seja possível, a acelerarão será continua na medida em que começarmos a ser atraídos por outros corpos celestes maiores até atingirmos velocidades astronômicas!

- Seja como for e seguindo seu raciocínio, esta coisa levará pelo menos alguns anos para chegar ao destino, Arcadamius! – tinha sido a explicação dele sobre o lançamento do projeto Voyager no final do Século XX e que tinha elucidado a possível origem dos alienígenas e a chegada na Terra para captura da raça humana.

- Supondo que não existam pontes Einstein-Rosen pelo caminho... – Sam brincava com as palavras com a nítida certeza que ela não saberia do que se tratava.

- Não complique o que já é simples Sam! – sorriu para ele – Se houvessem buracos de minhoca ou dobras espaciais, como preferir, tão perto de nosso Sistema Solar, já saberíamos! – sorriu sabendo que o surpreendera. Chegaram ao piso inferior que estava totalmente enegrecido e ausente de qualquer tipo de luminosidade.

Riley que caminhava distraída não se apercebeu da intensa escuridão que os envolvia e chocaram-se por completo quando ele parou abruptamente na sua frente. Samuel envolveu-a pela cintura e não deixou que se afastasse do seu corpo, com a outra mão segurou-lhe a nuca e parte do cabelo, beijando-a em seguida. Riley não resistiu ao calor do momento e deixou-se invadir pelo desejo que consumia sua alma. No fundo queria ser protegida de alguma forma, estava cansada de tomar decisões sozinha. Mas lembrou-se do que havia deixado para trás.

- Eu não posso... – Disse-lhe com a voz embargada e quase imperceptível, alguns minutos depois quando Samuel a pegou pelo colo e a deitava no chão delicadamente.

- Não voltaremos para casa Riley e a viagem será muito longa! Seremos apenas nós dois rumo ao infinito e por toda a eternidade... – Samuel ardia de desejo incontido pela mulher ainda em seus braços.

- Ainda não, por favor... – estava disposta a se entregar a ele em algum momento, mas fazia apenas dois, talvez três dias que a vida mais intima e amorosa tinha-lhe sido revelada nos braços de seu amado Chris, que mesmo estando a milhões de quilômetros de distância ainda exercia sobre ela uma enorme presença.

Samuel deixou-a sentada no chão ainda com tudo escuro em volta, a total ausência de luz naquele momento deixou de ser um agente motivador do que ele pretendia fazer e passou a ser apenas mais um problema. Riley abraçou as pernas e colocou o queixo sobre os joelhos, ficou em dúvida se rejeitá-lo nas condições em que estavam tinha sido uma boa ideia, mas certamente ainda não estava preparada para ele.

Em todo o caso precisavam com urgência encontrar respostas para o que fariam a seguir e sentada ali no chão não as conseguiria. Apoiou uma das mãos no piso liso e frio e assustou-se ao perceber que este se iluminou ao seu toque. Samuel que lamentava interiormente que ela fosse tão devotada ao namorado mesmo tão longe de casa, viu aquilo com assombro. Levantou-se ajeitando a roupa e tudo se apagou novamente.

- O que houve? – perguntou para o amigo.

- Eu não fiz nada, talvez tenha sido você! – Sam estava tão absorvido pelos próprios pensamentos que tinha permanecido imóvel por vários minutos. Apenas na espera que ela indicasse o próximo passo.

- Não fiz nada de extraordinário, apenas apoiei a mão no chão e me levantei! – tocou novamente o piso e este acendeu por completo.

- É isso! Repare que existem formas e cores diversas no chão que se iluminaram para que pudéssemos ver! – era surpreendente que tivessem achado algo similar ao que viram no piso cima e que os humanoides dominavam cm destreza, isso lhe deu uma ideia do que poderia ser. – Creio que seja um tipo de comando como o que vimos sendo utilizado na parte superior! Lembra-se que eles, os humanoides, passavam as mãos por cima e elas acendiam? – tinha sido desta forma o modo como descobriram as reais intenções dos invasores.

- Sim, lembro bem! Inclusive a aparente satisfação que vi neles quando mostraram a destruição de Marte! – jamais esqueceria, que por instantes ainda considerou que eles pudessem ser uma civilização avançada que os estavam removendo em segurança para outro planeta, na iminência de uma possível destruição da Terra por algum tipo de apocalipse desconhecido, similar talvez ao que supostamente havia extinguido os dinossauros sessenta e cinco milhões de anos atrás. Sorriu de si mesma sarcasticamente por pensamentos tão infantis.

- Por que não vemos o que descobrimos? – Sam tentou por várias vezes tocar tudo o que conseguia sentir ao seu alcance, mas nada acontecia. – Bem é sua vez, eu não consegui nenhum resultado por aqui! – estava decepcionado que talvez sua suposição fosse infundada, mas o que aconteceria a seguir provaria que tinha razão.

Riley fez um movimento suave com as duas mãos esticadas e levemente abaixadas em frente ao peito, duas luzes emanaram automaticamente do chão, uma vermelha circular e outra triangular azul. Ambas estavam contidas pelas palmas das mãos, retirou a da esquerda e notou que se apagara, retomou a posição e novamente acendeu. Os feixes de luz saiam do chão e terminavam em suas mãos. Não ultrapassavam de forma alguma.

- Bem, já sabemos como funcionam! Só não sabemos ainda para que sirvam! – Samuel deu uma gargalhada que ecoou de forma abafada pelo recinto, isso teve sua utilidade, ainda que não pudessem ver por completo onde estavam já sabiam que não era de dimensões tão grandes como supunham ao entrar.

- Funciona como uma espécie de teclado, Sam! – Riley estava maravilhada como a descoberta. – Na verdade está mais parecido com um Teremim! – lembrou-se que sempre desejara ter um em casa para que pudesse se divertir nas horas vagas, quem sabe ainda teria um, pensou no futuro.

- Seja lá o que for esse Teremim, espero que saiba usá-lo! – Sam arriscou que fosse alguma coisa que pudesse ser de fácil utilização e compreensão para eles.

- Infelizmente não! Ainda que sempre tivesse a intenção de aprender, nunca tive a oportunidade... – naquele momento jurou para sim mesma que faria melhor uso do seu tempo a partir daquele evento sinistro que a empurrava pelo espaço afora, como se estivesse num barco á deriva. – Mas nem tudo está perdido! Sei o princípio de funcionamento! – tinha certeza disso e estava na hora de colocar seus conhecimentos em prática.

- Então vamos ver o que acontece! – Samuel estava ansioso para que alguma coisa fosse revelada, já que supôs acertadamente não haverem a bordo manuais técnicos de funcionamento da Astronave, que pudessem ler e muito menos na língua que compreendessem, se houvesse a mínima possibilidade de estar enganado.



- Funciona mais ou menos assim! – olhou para ele iluminado pelas fracas luzes que emanavam do chão, não pôde deixar de abrir um sorriso angelical que ele percebeu sem demora.

- O que achou tão engraçado? – perguntou-lhe o amigo sem entender o motivo pelo qual ela sorria com tanta graça. Continuava linda apesar das adversidades, naquele momento, duvidou que em algum momento de suas vidas ela pudesse vir a lhe pertencer. Chris era um rapaz de sorte e aparentemente nada mudaria isso.

- É que em geral as pessoas ficam medonhas quando as luzes incidem indiretamente sobre elas vindas debaixo... – não tinha sido o caso dele e foi isso que a surpreendeu, permanecia belo como o tinha visto na primeira vez ainda enrolada na toalha molhada a caminho de Lucan. Sentiu o coração ficar comprimido dentro do peito, seus sentimentos a confundiam continuamente.

- É uma criação de um inventor russo chamado russo Léon Theremin em 1928, é uma coisa muito antiga! – resolveu que seria melhor mudar de assunto ou acabaria por ficar nos braços dele ou sobre ele naquele chão em que pisavam. – Funciona assim; uma das mãos controla a frequência e a outra o volume, isso no caso do Teremim que é um instrumento musical, que não me parece que seja este o caso! – oscilou levemente as mãos para cima e para baixo e notou que tinha razão. Não funcionava como um instrumento musical, mas sim como um teclado de computador. Aquilo era a porta de entrada para desvendar aquela tecnologia intrincada.

- Entendi! Música! – Sam posicionou-se em frente a ela de braços cruzados e procurou fazer movimentos similares sem obter qualquer tipo de resultados. – Mas por qual motivo eu não consigo fazer com que funcione? – ainda não tinha certeza se conseguiriam algum resultado positivo com tudo aquilo e esta parte específica o intrigava.

Riley também não entendeu o motivo pelo qual aquelas coisas respondiam ao seu toque e não ao dele. Os humanoides também tinham esse mesmo “poder” do qual ela agora desfrutava, mesmo que não tivesse a mínima ideia de como usá-lo. Lembrou-se de seu amado Chris e sua explicação sobre como os seres humanos eram “colhidos” pelos Sinos e eles não.

- Hipoteticamente poderia ser por marcadores de DNA... – falou baixo para si mesma, mas não sem Samuel perceber o que ela dizia e a interrupção proposital na sequencia de pensamento.

- Aonde quer chegar com essa teoria? – estava confuso e intrigado com as últimas palavras que ouvira dos lábios da mulher que tanto amava e que continuava parada na sua frente ao mesmo tempo em que não podia tocá-la como gostaria.

Riley olhou para ele com visível decepção no olhar e mais apreensiva do que o normal, a verdade que se acabara de revelar em sua mente não era nada confortável, ao contrário, bastante assustadora e a tendência seria que viesse a piorar na medida em que fosse avançando nas descobertas sobre o povo invasor.

- O Fator RH é que determina quem pode e quem não pode utilizar estas coisas... É como um marcador genético... De procedência... – passou as mãos mais para os lados de onde permaneciam e em alturas diferentes e novas luzes com formatos distintos acenderam. – Eu e eles, ou melhor, nós os “invisíveis” de algum modo compartilhamos das mesmas características dos alienígenas, por esse motivo eu “converso” com esta coisa e você não.

Fazia todo o sentido na mente de Samuel a explicação que ela lhe dava. Vira em outros momentos como a luz azul turquesa brilhante mudava de cor, para vermelha, quando passava pelos “invisíveis”, era um método de segurança evitando que os próprios criadores do sistema e capturadores da raça humana fossem abduzidos equivocadamente. Fazia todo o sentido na mente de Samuel e Riley, mas foi ele quem perguntou.

- Isso faz de você um ser hibrido? – ele estava sério com a questão a ser respondida.

- Não sei Sam... – Riley permaneceu de cabeça baixa fingindo que se interessava pelo sistema luminoso que tentava controlar e não para a insinuação atroz e maldosa que ele acabara de fazer. – Não creio que sua irmã seja alguma espécie de ser hibrido e muito menos que seus pais fossem algum tipo de alienígenas... Não concorda? – dirigiu-lhe um relance de olhar, que não fez questão que demorasse. Só queria ver se ele tinha entendo o que acabara de dizer e o que ela havia explicado. Em todo o caso, sentia que as coisas não ficariam bem.



Capítulo II

Samantha e Rex

Chris Raines acabara de expor para a família O’Connor toda a saga que ele junto com a filha desaparecida de Brian e Nora, sentados na sua frente, haviam singrado desde que a invasão começara. A bem da verdade, nenhum deles sabia ao certo o que tinha acontecido depois que os Sinos pousaram, muito menos onde estariam Riley e Sam, mas era de se supor que se não estavam em nenhum dos outros objetos que pousaram, certamente estariam a bordo da Nave Mãe. E essa era a segunda fase do plano de Chris, encontrar o gigantesco bólide ou o que quer que fosse e que viajava pelo espaço levando o restante da raça humana que tinha sido sequestrada e para um destino incerto.

- Mas ela está protegida pelo meu irmão Samuel, nada poderá lhe acontecer! – Samantha concluía o relato de Chris e acima de tudo confiava cegamente no irmão e o via como seu super-herói favorito. Acreditava nele.

- Sim minha pequena Samantha, eles estão bem! Riley também está cuidando de Samuel, nada lhes acontecerá! – Chris mesmo sabendo que muito provavelmente já a perdera por completo, senão para os Aliens, certamente para Sam, desejava do fundo do coração que estivessem bem. Afinal ele tinha Anne a seu lado, não via motivo para que Riley não fosse feliz ao seu modo. – “Amar é isso, desejar á pessoa amada o melhor mesmo que isso seja o pior para si mesmo...” – pensou em silêncio, como se tirasse um enorme peso de cima dos ombros.

- Nós só podemos lhe agradecer pelo que fez Chris, naquele momento em que você irrompeu pela porta com aquela história absurda sobre alienígenas, não tínhamos ideia que tudo acabaria desta forma! – Brian lamentava o destino da filha, mas intimamente sabia do que ela era capaz e nada do que ouvira do jovem rapaz sentado na sua frente falava ao contrário. Lembrou-se de todos os ensinamentos que lhe havia ministrado ao longo dos anos, esperava que ela os recordasse e fizesse bom uso deles.

- Você a amava Chris? – Nora O’Connor foi mais direta, sabia dos sentimentos de sua filha por ele e queria saber se fora correspondida mesmo nos seus últimos momentos. Era fundamental que tivesse essa certeza e paz no coração

- Nós fomos íntimos em alguns momentos, especialmente no final... Sim eu a amava... Acho que ainda amo... – olhou para Anne que estava sentada ao lado da Nora e que não se apercebera de que eles tinham uma relação. Se em algum momento teve essa percepção, quis saber até onde ele estava sendo sincero. Anne permaneceu em silêncio sabendo que ainda disputava seu amado com um fantasma.

- Não acho que precisemos saber de detalhes que agora não vem ao caso, o mais importante é que ao menos agora sabemos o que finalmente aconteceu com nossa filha Riley e mesmo que ela não tenha os devidos créditos pelo que fez, em algum momento será reconhecida, nem que leve cem anos! Isso eu prometo! – não deixaria que a memória da filha fosse apagada da história humana e muito menos que fosse diminuída por vaidade política dos que agora governavam o mundo. Mas sabia perfeitamente que a história sempre seria escrita pelos vencedores e ao seu modo. Estava determinada a fazer tudo ao seu alcance para que a filha ocupasse seu lugar de direito na história. O último baluarte de uma raça que foi subjugada em uma única noite por um agente externo.

- Sim, durante este ano em que ficámos aqui na esperança que ela aparecesse, não tínhamos a mínima ideia do que havia acontecido! Você foi muito esclarecedor e gentil em nos falar! – Nora concluiu a conversa despedindo-se de todos os presentes e subiu a escada. Foi ao quarto rosa com móveis brancos e floridos para sentir a presença da filha por uma última vez.

- E seus pais Chris? – Brian queria retribuir o favor pelo menos se interessando um pouco mais pela vida do rapaz que tinha sido intimo de sua única filha e que fora seu anjo da guarda na ausência deles.

- Não voltaram, pelo menos não até agora! – segurou a mão de Anne para que pudessem ir embora. – Em todo o caso, se não estiverem na Terra, estão em boas mãos tenho certeza! Riley os protegerá! Não deixará que nada lhes aconteça! – já tinha pensado nessa possibilidade e era um dos pensamentos que o confortava quando sentia a ausência dela. Seus pais protegidos em tempo integral pela pessoa mais corajosa que já tinha conhecido.

- Samantha! Pode subir aqui um minuto, por favor? – Nora do alto da escada que levava para o segundo andar fazia um gesto para que ela se aproximasse. – Pode vir! Rex sabe o caminho! – sorriu para a menina que tinha levantado de onde estava sentada e corrido escada acima. As pessoas que estavam no andar abaixo permaneceram em silêncio.

- Veja Samantha, este era o quarto de Riley! – levou-a para ver o quarto rosa. – Todas estas coisas bonitas que estão pintadas de branco com flores coloridas fomos nós duas que fizemos quando tínhamos algum tempo livre! – olhou para Samantha que tinha os olhos reluzentes.

- Parece um quarto de bonecas! Riley era uma boneca não é? – sorria para Nora que sentiu um aperto no coração ao lembrar-se da filha e como era meiga. – Mantenha assim até ela chegar! Tenho certeza que ela gostará muito! – sentou-se na cama se solteira forrada com o lençol lilás e deixou que o peso do corpo oscilasse sobre o colchão.

- Você gosta de ficar com Chris e Anne? – mais uma vez sondava a pequena menina que não via nada demais nas suas perguntas que não fossem apenas curiosidade.

- Eles cuidam de mim e sempre me ouvem! Mas não gostam muito de brincar e nem são tão velhos como você e o senhor Brian! – deitou-se na cama e abriu um largo sorriso que iluminou todo o ambiente. Nora teve a certeza que estava no caminho certo. – Olhe! Ali no teto! – apontou com o fino e delicado dedo. – É um quebra-cabeça? – perguntou não estando muito certa do motivo pelo qual um quadro estaria fixado no teto sobre a cama.

- Sim, é um quebra-cabeça! Este especificamente se chama Schloss Neuschwanstein, também conhecido como o Castelo de Ludwig, demos para ela no ano passado! – passou os dedos pelos cabelos da pequena Samantha deitada na cama de sua filha. – Todos os anos ela pedia um e quando terminava, prendia no teto! Os outros estão dentro do armário guardados... – olhou para um dos canto do quarto onde sabiam que estariam.

- Um dia vou poder ter um quarto assim também? – perguntou a jovem menina deixando que Rex a lambesse no rosto enquanto sorria.

- Este quarto pode ser seu se você quiser... – Nora tinha atingido seu objetivo, não estava disposta a viver uma vida incipiente ao lado do marido sentindo a ausência da filha todas as vezes que cruzasse aquele corredor. A casa precisava de uma presença com espirito livre e Samantha poderia ser o que estava procurando, além disso, a pequena princesa á sua frente tinha um laço afetivo muito grande com Rex e com sua própria filha, mesmo ausente, isso estava bem visível.

- Eu bem que gostaria! Mas quem cuidará de Chris e Anne? – estava preocupada com os amigos que a protegeram desde que Sam tinha desaparecido na luz azul turquesa daquelas coisas douradas e assustadoras, mas bonitas.

- Creio que podemos dar um jeito... Vamos descer e falar com os outros! – pegou-a pela mão e desceram seguidas de Rex que parecia entender o plano que estava sendo executado.

- Ora aí estão elas! – Brian levantou-se para beijar a esposa que agora tinha outro semblante, estava mais radiante do que sempre fora nos últimos meses. – Por onde andaram? – perguntou.

- Nós estávamos conversando no andar de cima! – olhou para o marido que nada entendeu do sorriso enigmático que ela lhe lançou. – Que idade você tem Chris? – quis saber.

- Dezessete agora... – olhou para Brian tentando captar se ele tinha percebido alguma coisa que lhe desse uma pista sobre o motivo da pergunta.

- E você Anne? É o seu nome não é? – passou-lhe a mão pelos cabelos, quis parecer mais amigável do que possivelmente não fora desde o inicio da conversa com seus convidados.

- Um ano a menos do que Chris... – sentiu-se fragilizada.

- Vocês são muito jovens e tem um futuro maravilhoso pela frente! Merecem viverem todas as oportunidades que a vida lhe puder proporcionar! – segurou a mão do marido fortemente sabendo que o momento crítico se aproximava. – E sabendo que os novos tempos estão mais difíceis, gostaria de lhes fazer uma proposta! – ainda segurava a mão do marido que agora ficava úmida de suor. Soube nesse momento que ele compreendera o que ela estava fazendo.

- Que tipo de proposta senhora O’Connor? – foi Chris Raines quem percebeu que as coisas estavam para mudar.

- O que acham de deixar Samantha ficar aqui comigo e Brian? – um profundo silêncio se estabeleceu no recinto. – Penso que vocês continuarão morando na casa de seus pais, os Raines do outro lado da rua e não será longe para que possam se encontrar todos os dias se quiserem! – insistia pensando não só na solidão que sentia sem a presença da filha, mas também por que Samantha era muito jovem para ficar na companhia deles, que mesmo tendo passado por tudo o que narraram, ainda eram simplesmente adolescentes e com absoluta certeza isso mudaria a qualquer momento vivendo sobre o mesmo teto.

- Eu não sei... Nunca pensámos em nos separar... – Chris estava relutante quanto ao que fazer. – Samuel nos confiou a irmã e não tenho certeza se podemos abrir mão dela como deseja! – precisava ganhar tempo para pensar, o objetivo daquela visita não tinha sido esse.

- O que você quer fazer Samantha? – Anne era mais objetiva e racional do que ele neste aspecto, também tinha um plano em andamento.

- Eu gostaria de ficar no quarto de Riley e com Rex! – a sedução do ambiente e a segurança do lugar não lhe deixaram dúvida na mente.

- Então acho que você deve ficar minha pequena Samantha! – ajoelhou-se para abraçá-la, amava-a como a uma irmã. – E você sabe que estamos do outro lado da rua se precisar não é? – olhou para Chris, depois Brian e Nora que lhe agradeceu discretamente com a cabeça. Eram mulheres, pensavam iguais e falavam a mesma língua.

- Eu não sei o que dizer senhora O’Connor, nem mesmo sei se gosto da ideia! – Chris sentiu-se em desvantagem ao sentir que os três já tinha decidido o futuro de sua amiga e protegida.

- Veja Chris, em qualquer momento precisaremos executar a Segunda Fase do Plano Phoenix e Samantha não poderá ir conosco, não podemos colocá-la em risco! – Anne tinha a sensatez do momento e precisava que ele tivesse os dois pés no chão ali e agora, além disso, queria uma vida com ele, uma vida a dois que até então jamais tiveram.

- Sim... Tinha esquecido que ainda não terminamos! – olhou para os demais presentes respirando bem fundo e levantando-se em seguida. – Venha aqui minha pequena Samantha! – pegou-a no colo. – Eu e Anne estaremos sempre do outro lado da rua, quando precisar apenas corra para lá e abra a porta, está bem? – beijou-a apertando fortemente em seus braços seu corpo frágil contra o dele. Sentiria infinitas saudades.

- Eu vou ficar bem Chris! Mas ainda vou cuidar de vocês mesmo estando distante! – beijou-o no rosto esperando que ele a colocasse no chão. – Avise ao Bobby Flanngan onde estou! – desapareceu no topo da escada. – Não esqueça! – ainda se fez ouvir ao longe enquanto desaparecia.


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