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De Vermelho e De Cinza

O futuro como você nunca imaginou


Y. N. D a n i e l





* * * * *



Publicado por:

Y. N. Daniel

Copyright © 2016 by Y. N. Daniel



É PROIBIDA A REPRODUÇÃO

Todos os direitos desta edição são reservados ao autor. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou mesmo transmitida por meios eletrônicos ou gravações, assim como traduzida, sem a permissão, por escrito do autor. Os infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98



* * * * *




CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

CAPÍTULO 15

CAPÍTULO 16

CAPÍTULO 17

CAPÍTULO 18

CAPÍTULO 19

CAPÍTULO 20

CAPÍTULO 21

CAPÍTULO 22

CAPÍTULO 23

CAPÍTULO 24

CAPÍTULO 25

CAPÍTULO 26

CAPÍTULO 27

CAPÍTULO 28

CAPÍTULO 29

CAPÍTULO 30

CAPÍTULO 31

CAPÍTULO 32

CAPÍTULO 33

CAPÍTULO 34

CAPÍTULO 35

CAPÍTULO 36

CAPÍTULO 37

CAPÍTULO 38

CAPÍTULO 39

CAPÍTULO 40

CAPÍTULO 41

CAPÍTULO 42

CAPÍTULO 43

CAPÍTULO 44

CAPÍTULO 45

CAPÍTULO 46

CAPÍTULO 47

CAPÍTULO 48

CAPÍTULO 49

CAPÍTULO 50

PERSONAGENS

Acontecimentos anteriores a história de 2363

Notas do autor

TERMOS JAPONESES

TERMOS CHINESES













* * * * *


O que você chama de realidade, não passa de uma interpretação. A realidade verdadeira está além dos cinco sentidos.


* * * * *













* * * * *


Dedicado àqueles que decidiram sair da matriz.



* * * * *




CAPÍTULO 1


Uma folha seca se desprende do galho de uma árvore e cai. Mas antes de chegar ao chão, é carregada por um vento que anuncia uma torrencial chuva de verão. A folha seca rodopia em um redemoinho no meio da rua, depois dispara em direção ao alto. Paira no ar, desce, passa por cima de alguns magnocarros, e é arremessada por uma lufada de vento em direção ao vidro de um restaurante. Um que ficava entre a tradicional rua Bela Cintra e a rua Sarandi.

O prédio, de quatrocentos anos, permanecia intocado em suas características arquitetônicas originais. A emblemática medusa no alto da porta de entrada lembrava que ali, algum dia, havia funcionado um outro tipo de estabelecimento. Mas o que havia sido, ninguém mais lembrava.

Hoje, a medusa era o símbolo do restaurante franco de nome “La Maison de Marinete”. Um restaurante de esquina, de dois andares, que estava sempre lotado devido aos preços justos e a boa comida.

A Maison de Marinete era um oásis para os francos que viviam em São Paulo. Uma cidade de maioria brammy.

Entre os francos presentes, e entre o murmurar de um francês arcaico falado por eles, haviam duas mulheres, em uma mesa próxima a uma das janelas de vidro, que não estavam falando nem português e nem francês. Elas falavam um inglês com sotaque marcadamente norte-americano. E por causa disso recebiam, vez por outra, olhares censores dos ocupantes das mesas próximas.

— Então, Mei Mei, o que é tão importante que fez você descer até aqui?

—Você sabe que a ideia de que este país está embaixo e a América está em cima é apenas uma convenção, não sabe?

—Sim. Não sou tão nerd quanto você, mas sei. Mas então, o que fez você descer até aqui?

O tom de Gloria era coloquial. Ela não poderia dizer que Mei Mei era uma amiga de longa data. Afinal, seus encontros haviam sido sempre de natureza puramente profissional. Ainda assim, de alguma forma, havia entre as duas uma amizade.

Chega uma moça de cabelos castanhos, sardas próximas ao nariz e carregando uma bandeja de aço. Arroz com brócolis, steaks de carne artificial, legumes cozidos, molho de mostarda, uma farofa de quinoa, pão torrado e bacon.

Enquanto a moça se vai, Mei Mei toma um gole de vinho. O vinho franco era tão bom ou melhor que o vinho clandestino francês. Um vinho jovem, cheio de sol, era o que ela pensava. A cabernet sauvignon, assim como a estátua da liberdade americana, era uma francesa que ninguém mais lembrava da origem. A uva cabernet sauvignon era brasileira e ponto final, era o que os francos diziam. E Mei Mei não podia fazer outra coisa que não fosse concordar.

— Você parece bem — fala Mei Mei.

— Você também. Nunca pensei que fosse ver você com uma roupa dessas.

— É verão.

Mei Mei estava vestida com um vestido branco, estampado com pequenos pontos azuis-escuros, que ia até os joelhos. Cabelos soltos, unhas pintadas de branco, e botas pretas de cano curto que lhe davam uma aparência jovial.

Gloria, como sempre, vestia uma calça jeans, botas de couro curtido por debaixo da calça e uma camiseta branca. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo amarrado com uma tira que Mei Mei não conseguia identificar de que material era.

Gloria ataca o steak. Mei Mei olha para fora e percebe o tempo a mudar de um dia ensolarado para um dia de chuva.

Um ano já havia se passado desde a última vez que as duas haviam se encontrado. Certamente as lembranças já deviam estar menos vívidas, esperava Mei Mei.

— Gloria, você se lembra da última vez que nos falamos?

— Sim — ela responde com a boca cheia — você me ajudou a salvar meu filho daquele filho da puta do Petronius.

— Sim, ajudei — ela fala olhando para as nuvens carregadas no céu.

Um casal de idosos francos muito bem vestidos, diferente dos demais, parecem estar mais curiosos do que irritados com as duas americanas.

— Gloria, sabe como seu Petronius ficou sabendo de você e do seu filho?

— Ele era diretor da CIA. Uma hora ele ia descobrir. Você me avisou disso, lembra?

— Sim.

Gloria para de comer.

— Por que está me perguntando isso?

— Gloria, fui eu que forneci a sua localização e a de seu filho para Petronius — Mei Mei dispara a notícia à queima-roupa.

O semblante de Gloria muda. A expressão relaxada torna-se dura. Os olhos ficam arregalados. Os lábios se contraem.

— Você não está falando sério.

— Eu entreguei você — fala Mei Mei de uma forma fria e impessoal.

Gloria sente uma coceira na batata da perna direita.

Os abafadores psíquicos não lhe permitiam nem ler e nem implantar ideias nas mentes das pessoas ao seu redor. Ainda assim, aquela coceira lhe dizia quando algo relacionado a telepatia estava ocorrendo.

Por alguns segundos, que no plano mental significavam horas, ela, sem saber o porquê, é atraída por um homem já de meia idade que acompanha uma menina com não mais de dezesseis anos. Tudo indica que ele é um guarda-costas. A postura, o olhar, a forma eficiente com que ele mantém a distância entre a garota e as outras pessoas. Tudo feito com muita habilidade e discrição. Mas algo estava errado, algo estava definitivamente fora do lugar.

Depois que os dois passam por sua mesa, Gloria volta a conversar com Mei Mei.

— Você veio dos Estados Unidos para me dizer isso?

— Sim.

Gloria respira fundo.

— Eu não sei o que dizer. A única coisa que posso pensar agora é em como você é uma tremenda filha da puta, fria e calculista.

Mei Mei não diz nada.

— Por sua causa eu quase perdi meu filho.

— Eu sei, eu sinto muito.

— Ah, você sente muito?

— Sim.

— Sabe Mei Mei — ela pega a faca que estava ao lado de seu prato e segura-a com a técnica de empunhadura de punhais — a única coisa que tá me impedindo de te dar um soco na cara é o respeito que eu tenho pelo JB.

Provavelmente, em um combate corpo a corpo, Mei Mei levasse a melhor. Gloria a tinha visto em ação uma única vez, em um combate com o próprio JB, anos atrás. Uma exibição para os alunos da academia. Mei Mei era inumanamente rápida. Não seria fácil pegá-la desprevenida, mas a tentativa de quebrar o nariz daquela que estava a sua frente, ainda que falhasse, já serviria para amenizar minimamente toda a raiva que estava sentindo naquele momento, pensava Gloria.

— Eu não espero que me perdoe, eu apenas achei que você devia saber a verdade — fala Mei Mei, ainda sem denotar nenhum tipo de remorso — mas eu quero que você entenda que eu fiz isso pra tirar a Tiffany do coma. O Petronius apareceu no hospital e me fez uma proposta, Gloria. Uma proposta que eu não pude recusar. Ele ofereceu uma vida normal para minha filha.

— E pra conseguir essa vida normal, você me empurrou na frente de um ônibus a duzentos por hora, é isso?

— É.

— E como está a Tiffany? — Gloria pergunta, como se daquela resposta dependesse todo o futuro entre ela e Mei Mei.

— Bem, perfeita, sem nenhuma sequela dos anos do coma.

A resposta era uma quase verdade.

Tiffany estava fisicamente saudável, mas havia um pequeno detalhe que Mei Mei não ousava revelar. O processo utilizado para tirar sua filha do coma, de acordo com JB, Joe Brown, pai de sua filha e seu ex-marido, era algo, à primeira vista, em pleno século vinte quatro, que soava mais do que fantasioso, soava ridículo. Mas o ridículo da ideia era a única explicação para conseguir o que os melhores médicos das Américas e da Europa não haviam conseguido, acordar Tiffany. O Chelovektenney, que havia conseguido o milagre de acordar Tiffany, havia utilizado, por falta de outra palavra, magia negra.

— Que bom.

Silêncio, coceira na batata da perna.

Gloria se levanta da forma mais grosseira que consegue.

— Como mãe eu entendo o que você fez, mas sabe do que mais? Eu jamais faria o que você fez.

Os francos nas outras mesas param o que quer que estivessem fazendo para prestar atenção na conversa das duas.

— Você é melhor do que eu — fala Mei Mei como uma constatação amarga.

— Pode apostar que nisso eu sou.

Gloria se vai e seus dedos resvalam em um copo da mesa com vinho pela metade.

O vinho se espalha pela mesa, o copo rola e cai se espatifando no chão.

No elevador que irá levá-la até o subsolo ela encontra o guarda-costas e a garota.

Algo está fora do lugar.

O elevador chega. Eles entram.

E enquanto o elevador desce, no estacionamento, magnocarros e flyers empilhados são movimentados de lá para cá como brinquedos por gigantescos braços mecânicos.

O elevador chega ao estacionamento.

O guarda costas e a garota se afastam.

Algo está fora do lugar. Eu sei. Mas seja lá o que for, eu não tô com cabeça para isso agora. ” Ela diz para si mesma.

Do nada aparecem homens com roupas leves, sapatos esportivos e ostentando tatuagens que pareciam ir do pescoço e continuar pele a dentro. Cabelos curtos, rentes ao couro cabeludo. Os pulsos adornados com pulseiras de ouro e prata, e cordões também de ouro e prata. Não era necessário um grande poder de análise para concluir que aqueles eram agentes da máfia russa. Aquelas roupas e pequenas cruzes tatuadas em alguns dedos lhe confirmavam sua suspeita.

Garota, rica, guarda-costas, máfia russa, conclusão, fudeu”

Em campo aberto ela poderia acessar as mentes de todos ali e fazer eles acreditarem que a garota tinha sumido, mas com todos aqueles abafadores psíquicos sua telepatia e nada eram a mesma coisa.

OK, Gloria, ganhe tempo”

— Ei, peraí, vocês vão furar a fila? Eu tava atrás dela — diz Gloria apertando um sinal de emergência em seu zscinolex de bolso e indo em direção a garota.

Um homem imenso, quadrado como um armário, intercepta seu caminho.

— Isso não lhe diz respeito — ele fala em português.

— Não me diz respeito? Você tá furando a fila!

— Procure outra saída. Este estacionamento tem várias saídas — ele fala como se fosse um guia de turismo.

E é então que tudo começa.

Tudo acontece rápido. Mas na mente de Gloria aqueles segundos são uma eternidade.

Seis homens sacam suas armas para atirar em um único alvo, o guarda-costas. Este, com reflexos muito superiores aos seus atacantes, saca sua arma e dispara primeiro. Ele acerta três, antes de levar um tiro no peito e outro na cabeça. Enquanto quatro corpos se precipitam ao chão, dois guardam suas armas e já capturam a garota, segurando-a pelos antebraços. A garota não esboça nenhum sinal de medo — o que não passa despercebido por Gloria.

Um golpe de faca de mão no pomo de Adão do gigante a sua frente o incapacita. Ele leva as mãos a garganta. Ela saca sua arma que estava escondida em suas costas e consegue acertar um deles no peito. A garota faz um movimento brusco com um dos braços segurados pelo sequestrador que ainda está de pé. O anel dela faz um risco na mão dele. Ele se distrai. Tempo suficiente para Gloria acertá-lo com um tiro na face direita. Ele cai. A garota arregala os olhos. Há medo em seu rosto. Mas logo Gloria percebe que aquele medo não era resultado de um instinto de autopreservação. Ela estava com medo pela louca que estava tentando salvá-la. Então, já era tarde demais para ela entender o erro que havia cometido. Alguém estava atrás dela.

Eu devia ter golpeado com mais força”

Ouve-se um tiro. Um corpo cai.

Silêncio.

Gloria se dá conta de que ainda está viva.

Atrás dela, o gigante caído de bruços no chão e, mais atrás, Mei Mei, empunhando uma pistola-palma com a mão direita, com os cabelos perfeitamente arrumados.

Mei Mei coloca de volta a pistola na parte interna de uma das coxas. Destino ou não, ela agradece a oportunidade salvar Gloria e recuperar sua face.

— Da próxima vez, bata com mais força — fala Mei Mei, como se estivesse falando para uma plateia de teatro.

A garota está parada, olhando para Gloria, curiosa com o que está vendo. Mas ela não deveria estar tremendo, chorando, tendo um ataque de pânico? Se pergunta Gloria.

— Isso não muda o que você fez.

— Não, não muda — concorda Mei Mei.

— Estamos quites — diz Gloria.

— Não, não estamos. E eu não espero que me perdoe, apenas... apenas não me odeie Gloria.

Você acabou de salvar minha vida, sua filha-da-puta calculista. Não tem como eu te odiar agora sua cretina”

Mei Mei não era telepata, mas ela entende que o olhar de Gloria era uma espécie de “Talvez um dia, quem sabe, possamos voltar a ser amigas de novo”, uma porta muito estreita havia se aberto, e aquilo era mais do que suficiente para Mei Mei. No final, quem diria, a ideia de seu ex-marido de que ela deveria contar o que havia feito à Gloria para recuperar sua honra não havia sido de todo mal. Na verdade, ela era obrigada a reconhecer que, naquele momento, a ideia de Joe Brown havia sido a mais acertada.

Mei Mei, com a alma relativamente mais leve, se prepara para ir embora, mas não sem antes lançar um olhar para Gloria que esta já havia visto outras vezes em outros rostos.

Sabe Gloria, eu ainda não consegui decidir se você é uma pessoa muito sortuda ou muito azarada, ou, quem sabe, as duas coisas”

As duas coisas Mei Mei, as duas coisas”

— Você está bem? — pergunta Gloria para a garota que deveria estar aos prantos, mas que parecia calma como se nada tivesse acontecido.

A menina, com seus cabelos naturalmente frisados, que pareciam estar eletrificados, a olha com um semblante que Gloria não conseguia identificar que tipo de emoção expressava.

Ela estende a mão.

— Celeste Gandolfini.

— Gloria Sanson — ela aperta a mão da garota, sentindo-se confusa com aquela aparente calma.

Depois de estar certa de que a garota a sua frente não tinha ferimentos graves no corpo, ela se volta para o guarda-costas caído.

— Ele está morto — fala Celeste usando uma entonação analítica.

— Eu sinto muito.

— Eu também. Ele era um bom homem.

A energia do estacionamento muda.

Homens e mulheres vestidos em roupas cáqui estruturadas de silkspider, usando luvas de couro cru, começam a brotar das sombras das colunas do estacionamento. Ao redor do pescoço, colares com insígnias chamativas e cujos significados eram completamente desconhecidos para Gloria. Estavam todos com pistolas-palma em punho. Na cintura, portavam espadas que lembravam floretes.

— Se quiser continuar viva, afaste-se dela agora — diz uma mulher esguia, com o cabelo preso para trás, apontando para Gloria uma pistola e uma espada.

— Ela me salvou, Amanda — diz Celeste sem estranhar aquelas pessoas que acabavam de ter saído das sombras como em um passe de mágica.

— Se isso é verdade, nossa eterna gratidão — a mulher fala fazendo uma mesura mínima de cabeça.

— E vocês são?

Amanda ignora a pergunta.

— Venha Celeste.

Antes de ir embora Celeste faz um gesto inesperado. Ela se aproxima de Gloria e a abraça.

— Obrigado por salvar minha vida Gloria Sanson.

— Huummm, disponha — Gloria responde sabendo no seu íntimo que algo continuava fora do lugar, mas não sabia o quê.

Celeste dá a mão para Amanda e ambas somem nas sombras das colunas do estacionamento. Em seguida, os outros fazem o mesmo, levando consigo os corpos que estavam estirados no chão.

Os corpos estavam sendo levados. Mas e quanto às manchas de sangue no chão? E a gravação do que havia acontecido no sistema de segurança que, provavelmente, já tinha sido transmitida para a central de polícia mais próxima?

Amadores”

Ela acaba o pensamento e uma mulher idosa, de cabelos que pareciam palha seca de milho, vestida de azul, aparece. Do carrinho flutuante ela retira três pequenos robôs em forma de pizza que, assim que tocam o chão, começam o trabalho de procurar e limpar sangue ou qualquer outro tipo de fluído ou proteína orgânica que possibilitasse a análise de DNA para identificação.

— Você, moça, pode ir embora — ela fala mostrando dentes tão separados que pareciam os dentes de um tubarão.

— Ãhh... você é uma faxineira? Quer dizer, você sabe o que eu quero dizer, não sabe?

— Sim eu sou faxineira, e não se preocupe com os rastros digitais. Esses iluminatti não deixam rastros. É a especialidade deles.

E de novo o olhar de Mei Mei lhe vem à cabeça “Eu sou muito sortuda ou muito azarada? Iluminatti? ”

No dia seguinte, às seis da manhã, Gloria Sanson estava na Av. Brigadeiro Luís Antônio, número 3367, no Whilhelmina Gracie Building, no sexagésimo quinto andar, em uma sala, sendo observada por uma estátua de Ares que parecia lhe dizer, “E aqui estamos nós de novo. Você não cansa de entrar nessas roubadas? ”

É um hobby”, ela responde à pergunta imaginária.

— O senador Álvaro Gandolfini entrou em contato comigo.

— Huuummmmm....

— Huuummmmm?

— E? — Gloria pergunta como uma criança pega por um adulto fazendo algo errado.

— Gloria — sua chefe, Marcela Zsa Zsa Gracie, apoia os cotovelos na mesa em forma de arco — ele quer que você seja a nova guarda-costas da filha dele.

— Ah.

— E, você não quer me dizer como é que isso aconteceu? — Zsa Zsa pergunta como se as duas estivessem encenando uma peça de teatro e aquilo fosse uma deixa.

— Bem, quer dizer, eu estava num restaurante, e a filha dele ia ser sequestrada, e eu, é, acho, salvei a vida dela. Fiz mal?

— Não, não, é óbvio que não.

A Zsa Zsa que Gloria havia conhecido logo quando havia chegado ao Brasil havia mudado. Os cabelos rentes a cabeça haviam sido abandonados. Estes agora estavam longos, muito bem cuidados. O hábito de usar pouquíssima ou nenhuma maquiagem continuava igual. Mas as unhas, estas estavam sempre impecáveis. A forma de falar, de se expressar, de andar, de se mover, tudo parecia suavizado. Afinal, a vida de casada estava indo bem para Zsa Zsa, pensou Gloria.

— Mas você sabe quantos clientes iluminatti nós temos?

— Hã... não.

— Nenhum. Álvaro Gandolfini vai ser o primeiro iluminatti, desde que esta empresa foi fundada, a virar cliente.

— E isso é bom, certo?

— O que você sabe sobre os iluminatti, Gloria?

— Eles são ricos, muito ricos.

— Isso é verdade. Mas além de serem um clube de bilionários, eles são pessoas que devemos manter distância, é o que dizia minha vó. Sabe, Gloria, esse povo é rico há muito tempo. Eles estão no topo da pirâmide há dezenas, centenas de gerações. Pra eles o mundo é um tabuleiro de xadrez. Nós somos as peças e eles são os jogadores. E você sabe o que isso significa?

— Hã, acho que não.

— Jogadores não se relacionam com as peças que jogam. As peças são só peças.

Zsa Zsa se levanta, vai até um armário embutido e tira dele uma garrafa com água. O antigo hábito de beber Bubble Star havia sido abandonado. Ao que parecia, não beber bebidas alcoólicas fazia parte da nova condição de casada.

— Água?

— Sim, obrigada.

Zsa Zsa dá uma garrafa para Gloria.

Bebendo água da boca da garrafa descartável Zsa Zsa caminha lentamente de volta a sua cadeira.

— Eu não posso dizer não para o senador Gandolfini. Isso seria péssimo para os negócios. Mas ter um iluminatti na minha carteira de clientes também não é exatamente bom para os negócios. Ou seja, você me trouxe um cliente bilionário, que é bom, e me trouxe um cliente que tem uma agenda secreta, que vai deixar todos os outros nossos cientes com uma pulga... não, não uma pulga, um elefante atrás da orelha. Então a minha pergunta é, como diabos você faz isso? Como é que consegue juntar tanto azar e tanta sorte numa coisa só? Você faz de propósito? É um dom? — Ela suspira aparentando cansaço mental.

— A menina tava em perigo, eu fiz o que tinha que fazer. Eu não sabia quem era. Mas se soubesse, também, não mudaria nada.

— Pois é, e tem isso também. Você faz de um jeito que a gente não consegue ficar com raiva de você — fala Zsa Zsa resignada.

Silêncio.

— Tá certo, tá certo. Agora vamos ao que interessa — Zsa Zsa se recompõe — Eu só vou te dizer três coisas.

— Pode falar.

— Faça um bom trabalho, tente se envolver o mínimo possível com essa gente e, principalmente, não morra durante o serviço. Isso seria péssimo para a imagem da empresa.

— Mas e quanto ao El Toro?

— Uma das empresas do senador é uma grande patrocinadora do El Toro. Ou seja, ele abriu mão dos seus serviços.

Não morda a mão que te alimenta”, pensa Gloria.

O rosto de Gloria não esconde a alegria de não ter mais que ser guarda-costas do famoso jogador de rúgbi, ídolo de milhões ao redor do mundo, mas que ela considerava, por falta de expressão melhor, um pé-no-saco. Mas imediatamente depois de se dar conta que não teria mais que aturar as infantilidades dele, algo nela começou a sentir saudades do gigante que gostava que ela avaliasse se ele estava cheirando bem ou não.

— Tem mais uma coisa. O senador pediu para triplicar o seu salário. Mas por favor, não comente isso com ninguém. A última coisa que eu preciso agora é um time enciumado porque uma novata está ganhando bem mais do que eles.

— OK.

— E é isso, você começa hoje.

Gloria espera Zsa Zsa se levantar para só então fazer a mesma coisa.

Não passa despercebido de Zsa Zsa que Gloria esperou que ela levantasse primeiro. “Então estamos aprendendo boas maneiras, não é, dona sortuda-azarada? ”, pensou ela.

Durante o aperto de mão Zsa Zsa faz uma cara que causa estranhamento em Gloria.

— O que foi? — Gloria pergunta.

— Eu não sei. E esse é o problema.



CAPÍTULO 2


O bairro prisão Green Fly, também conhecido como Morumbi, era maior prisão do planeta. Projetada para ser um modelo de recuperação de infratores da lei e da ordem, a prisão Morumbi tornou-se uma espécie bizarra atração turística da cidade de São Paulo.

Além de ser vigiado por uma nuvem de drones e robôs de vigilância, o bairro era rodeado por uma muralha de cinquenta metros de altura e com cinco metros de espessura.

Com uma população de trezentos mil presos, o Morumbi era um bairro cidade com sua própria lógica, economia e lei.

A propaganda do governo brasileiro era a de que o índice de recuperação de presos, e a reinserção destes na sociedade promovida pela Morumbi, era o maior e mais bem-sucedido do planeta. Porém, como sempre, há uma diferença muito grande entre propaganda e realidade. Alto índice de recuperação, sim. Motivo? Quanto mais tempo no bairro prisão, menores as chances de sobrevivência do prisioneiro. Trezentos mil detentos, milhares de facções, um número infinito de combinações de interesses, dezenas de chefes de gangues, tudo isso fermentando em um ambiente autoregulamentado pela lei do mais forte. Desta forma, só existiam três possibilidades. Tonar-se forte, recuperar-se ou sucumbir. Das três opções, a terceira era a mais frequente, a segunda, a mais adotada. Quanto a tornar-se forte, ou tornar-se um líder de alguma facção ou gangue, bem, isso era algo para muito poucos.

De longe, tinha-se a impressão de que o Morumbi, a grande mosca verde na orgulhosa e rica cidade de São Paulo, era um ecossistema fechado e isolado do resto da cidade. Grande engano.

O fluxo de informações entre o bairro prisão e a cidade era intenso. Apesar do total bloqueio de sinais de satélite, ou qualquer outro sinal que tivesse o intuito de penetrar na cidade prisão, a informação escoava para dentro e para fora do bairro prisão tal qual óleo hiperfluido.

E quando e como as informações escoavam para dentro e para fora? Isso acontecia durante as visitas, as quais eram monitoradas pelos mais avançados robôs de vigilância do planeta, a.k.a., spyrobots.

As visitações eram feitas em cabines separadas por uma barreira de alovidro de vinte centímetros de espessura. Mas graças aos chips zscinolex embutidos, a imagem e som eram transmitidos através da barreira como se ela não existisse. O que podia ser algo bom, mas também, dependendo da visita, algo profundamente perturbador.

Em uma dessas cabines, uma mulher toda vestida de preto, de óculos escuros, sentada perfeitamente ereta, com as mãos pousadas sobre as pernas, esperava.

Do outro lado da cabine, aproxima-se um homem magro, desgastado, olhos fundos, rosto triangular e cabelos precocemente brancos.

Ele se senta e não reconhece quem está a sua frente.

— Quem é você? — Ele pergunta com um tom agressivo.

— Quem sou eu?

— É quem é você?

— Eu sou uma mãe que teve a filha atacada e estuprada por um marginal filho da puta que achou que ia conseguir se esconder — ela fala com uma calma gelada.

Ele arregala os olhos, se levanta assustado e some com um pavor colado em sua face.

A mulher continua imóvel.

Conduzido por dois guardas fortes como halterofilistas, ele volta e a cadeira. Mas desta vez, mãos com dedos de alicate o deixam imóvel na cadeira.

Ele começa a se debater.

— Essa mulher quer me matar! — Ele grita para que algum robô de vigilância acione algum protocolo. Mas nada acontece.

— Essa mulher quer me matar! — Ele grita de novo, dessa vez para os guardas. Mas nada acontece — Vocês estão ouvindo?! Me tirem daqui! Agora! Alguém tá me ouvindo?! Essa mulher quer me matar!

A mulher de preto acena para um dos guardas.

Ele tira uma massa do bolso, aproxima-a da boca do detento e esta se transforma em uma mordaça. Ele ainda tenta se livrar das garras que o prendem na cadeira, mas o esforço é em vão.

— Acabou? — Mei Mei pergunta, tirando os óculos.

O homem não dá sinal de que entendeu a pergunta.

— Você não é uma pessoa fácil de achar Nino. Eu demorei cinco anos pra entender que o único lugar que poderiam ter escondido você era aqui, na América do Sul, nessa prisão. E durante todos esses anos, eu ficava me perguntando “O que eu vou fazer com aquele filho da puta quando encontrar ele? ”.

O coração de Nino se acelera ainda mais.

— Você não destruiu só a vida da minha filha, Nino. Você destruiu uma linda possibilidade de futuro. Você destruiu o meu sonho de ter uma vida normal. Huummmm... eu sei, eu sei, gente como eu não tem vocação pra ter uma vida normal, mas você entende o que eu quero dizer, não entende?

Ela suspira.

— E aqui estou eu na sua frente. E olha só, depois de cinco anos todo aquele ódio que eu sentia sumiu. É isso, aí. Não é esquisito? Mas como assim? Você deve tá se perguntando. Bem, chegou uma hora que eu cansei de ter ódio. Eu sabia que um dia eu ia te pegar. Era só uma questão de tempo e paciência. E essas são duas coisas que eu tenho de sobra. E pra completar, uma coisa ótima aconteceu.

Ele parece confuso.

— Pois é. Ela se recuperou. E isso é muito bom. Principalmente pra você. E quer saber por quê?

Ele tenta falar, mas a mordaça transforma sua tentativa em grunhido.

— Porque eu decidi que não vou te matar.

Nino sente um breve alívio.

— Maaaaassss... — ela sorri — isso não significa que eu perdoei você. Nã-nã-ni-nã-não. Isso significa que eu não preciso mais te matar porque a sua vida, daqui pra frente, está nas minhas mãos. Eu vim aqui pra que você saiba, que eu sei como te encontrar não importa o quão bem escondido você acha que esteja. Além disso, eu quero que você saiba que pode acontecer de, um dia, eu acordar de mal humor e, por nenhuma razão aparente, decidir que não quero mais que você viva. E isso pode acontecer hoje, amanhã, daqui a um mês, um ano, ou nunca. Então, todos os dias quando você acordar, você vai se perguntar “Será que é hoje? ”.

Ela cruza as pernas.

— Mas e quanto a todos esses robôs de vigilância? E quanto a todas essas I.A.s que monitoram esse pequeno pedaço do inferno em que você vive? Por que nenhum deles dispara um alarme ou coisa parecida? Por que Nino? Porque eles são bons, mas eu sou melhor. E, antes que eu me esqueça, mantenha-se informado. Daqui pra frente, você é meu informante oficial desse lugar. E é isso. Adeus, Nino.

Ela acena com a cabeça para os guardas. Em resposta, eles arrastam Nino para longe da cabine. Ele grunhe alguma coisa. Mas ela não entende o que é, e nem está interessada.

Do lado de fora, na calçada, um homem alto, esguio, branco, cabelos pretos, barba serrada, rosto fino, olhos levemente orientais, ombros largos, vestido com algo que parece um quimono preto estilizado e perfeitamente ajustado no corpo, a esperava.

— E então? Como foi o seu encontro? — Ele pergunta.

— Satisfatório.

— Fico feliz em ouvir isso.

Ela tira do bolso um pequeno envelope. Nele, uma fina lâmina quadrada preta.

— Aqui está, como prometi — ela diz, entregando-lhe o envelope.

Na lâmina estavam todas as transações comercias legais e ilegais da máfia russa dos últimos dez anos.

Como um experiente prestidigitador, ele faz o envelope sumir das mãos dela como em um passe de mágica.

— Foi muito bom fazer negócios com você — ele diz.

— Um presente valioso pede um presente de igual valor, Koli San.

Ele se vai, leve e sorrateiro como uma raposa.

Seu nome era Koli Yamashita. Uma das criaturas mais intrigantes que Mei Mei já havia tido contato. Fora a sua indecifrável fisionomia, Koli Yamashita não tinha rastros significativos na hypernet e nem na shadownet. As informações sobre ele eram superficiais e óbvias. Pai russo, mãe descendente de japoneses, membro do clã Soga, detetive particular, solteiro e fim. Transações bancárias, lugares que visitou, pessoas que conhecia, vídeos, fotos, nada disso se conseguia achar. De que forma ele apagava todas essas coisas do cyberespaço? Ela se perguntava. Ele era um enigma a ser decifrado, mas não naquele dia. Aquele era um dia para celebrar. Nino Lamidto, finalmente, estava em suas mãos, ou garras, e ela poderia matá-lo quando bem quisesse.

Um magno-táxi amarelo para a sua frente e uma porta se abre.

No banco de trás está um homem negro, de traços achinesados, cabeça cuidadosamente raspada, vestido com uma camisa branca de manga longa, calça de linho bege e alpercatas de couro.

— Entre — diz o homem de cabeça raspada.

Mei Mei atende o pedido sem titubear.

— Como está se sentindo?

— Agora vamos falar dos meus sentimentos?

— Como você está se sentindo, Mei Mei? — Ele usa a entonação, “Não fuja da pergunta”.

— Melhor.

— Você não vai matá-lo, vai?

— Não.

— Estou surpreso.

— Eu também.

Silêncio.

— Perdoou aquele que quase destruiu a vida de nossa filha e disse a verdade para Gloria. Afinal, você melhorou seu carma e recobrou sua honra. Nossa filha pode ter uma vida sem a sombra da traição da mãe.

— Você precisava se ouvir. Você soa tão convincente.

Apesar da tentativa infantil de desqualificá-lo, ela sabia que ele tinha razão. Ela era uma das pessoas mais inteligentes do planeta, a maior hacker da shadownet, mas a culpa a consumiria e a deixaria vulnerável. A longo e médio prazo isso afetaria sua performance em tudo.

Do bolso da camisa, ele tira um par de óculos escuros e dá para ela.

Assim que coloca os óculos, através das lentes, ela começa a ver números, signos e protocolos passando a uma velocidade vertiginosa.

— Novidades? — Ele pergunta.

— O de sempre.

O de sempre significava mensagens enviadas com pedidos de investigação de legalidade no mínimo duvidosa

— Você já pensou em mudar de área, Mei Mei?

— Isso foi uma piada? — Ela pergunta enquanto o chip implantado na base da sua nuca interage com os óculos escuros que eram uma interface conectada a shadownet.

— Nossa filha saiu do coma. As despesas do hospital já diminuíram bastante e…

Ela tira os óculos e olha para ele. Ambos estavam separados havia sete anos, mas legalmente ainda eram marido e mulher. Outros homens haviam passado em sua vida. Breves chuvas de verão que não haviam deixado nenhuma marca ou lembrança. Aquele que estava a sua frente era o homem de sua vida. O homem pelo qual ela sentia carinho, admiração e respeito. Sentimentos os quais, desde o ocorrido com a filha do então casal, ela raramente demonstrava. Sete anos demonstrando irritação e indiferença, ela se lembrava com tristeza. Quantas mulheres ele havia tido? Ela se perguntava. Cinco, dez, quinze? O pensamento lhe incomodava. Mas apesar dos anos de afastamento, ela podia sentir que o algo que os havia unido no passado ainda estava ali, inteiro, palpável.

— JB, vou precisar da sua ajuda.

— Minha ajuda?

Ele estranha o pedido. Mei Mei era a mulher mais autossuficiente que ele já conhecera em toda sua vida. Ouvi-la dizer “preciso da sua ajuda” era algo que ele decididamente não estava esperando.

— Sim.

Ela coloca os óculos de lado, olha para frente e baixa a cabeça levemente.

— Eu vou me tornar uma kantigiti.

— O quê?! — Ele arregala os olhos — Acho que não ouvi direito.

— Motorista — ela fala em português com um leve sotaque — por favor, pare o táxi. Nós vamos descer.

JB tira um hyperfone do bolso, e passa na leitora atrás do banco do motorista. Táxi pago, os dois saem.

O táxi havia parado em uma praça pequena coberta com amores-perfeitos de verão e com alguns bancos de madeira. Eles sentam em um banco próximo. Um homem puxado por dez cães passa por eles.

Ao verem JB, os cães ameaçam a latir, mas ele faz um pequeno aceno e os cães sentam. Reação que deixa o condutor confuso.

JB aproveita para acariciá-los e depois, com um novo gesto, faz com que eles voltem a puxar o condutor, já que o inverso seria impossível mesmo que o condutor assim o que quisesse.

— Não perdeu seu jeito com os cães.

— E você não perdeu seu jeito de me deixar transtornado.

— É o que nós mulheres fazemos. Faz parte da nossa natureza, deixar os homens transtornados.

Ele segura a base do próprio nariz com o dedo indicador e o polegar.

— Lá no táxi. Você estava falando sério?

— Sim.

— Mas por quê? Tiffany está bem. Andando, falando, sorrindo. O que mais você quer?

— Ela foi acordada por um chelovektenney. Eles são demoníacos. Você mesmo disse. Esqueceu?

— Eu sei o que eu disse. Mas isso não tem mais importância.

Ela havia sido um dos melhores detectores de mentira que a CIA já havia tido. Mas não era preciso usar seus conhecimentos para perceber que ele estava mentindo. Ela olha para o céu. As nuvens se avolumavam. Algodões cinzentos enrolando-se uns nos outros. Seria uma chuva acompanhada dos terríveis granizos assassinos; os quais os paulistanos achavam uma coisa normal, ela pensava. Viu então que estava tergiversando.

— Mesmo assim. Ela foi trazida de forma antinatural. E você me ensinou que coisas antinaturais tendem a não durar em um mundo natural.

— Não Mei Mei, o que eu disse pra você foi que coisas antinaturais ou sobrenaturais não podem existir em um mundo natural sem que alguém pague um preço muito alto pra isso.

— Que seja. JB… Eu estou pronta. Fiz todo o treinamento.

— Mei Mei, ouça o que está dizendo — ele balança a cabeça e sorri um sorriso cansado — Você teria se tornado uma mestra de Kung Fu sem um professor, sem um sifu? Você realmente acha que vai se tornar uma kantigiti só porque viu uns vídeos? Mei Mei, me diga que não é nisso que você está acreditando.

— Você não entende.

— Então me responda, senhora autodidata. Quantos kantigitis existem neste planeta que não passaram por um treinamento n’kriano formal? Você deve ter pesquisado isso. Me diga, quantos?

— Nenhum.

Minha filha sobre o feitiço de um chelovektenney, minha ex-mulher querendo cometer suicídio ritual e daqui a pouco vai cair uma chuva possivelmente assassina. Falta mais alguma coisa? ”

— Você é provavelmente a mulher mais assustadoramente inteligente que eu conheço, Mei Mei. Não é possível que não veja a loucura que está querendo fazer.

— Ele disse que estou pronta.

— Ele?

Um casal de mãos dadas passa na frente deles.

— Você sempre me dizia que se a gente fica olhando profundo do abismo durante muito tempo, em algum momento, alguma coisa lá do fundo do abismo começa a olhar pra gente também, não é?

Ele não responde. Mas há receio em seu semblante.

— Depois que a Tiffany voltou, você tem razão, eu não tinha mais motivos para continuar com essa ideia. Mas então um dia, eu não sei por que, fiquei curiosa. E comecei a vasculhar as informações que consegui sobre a formação de um kantigiti.

Ela tem o cuidado de não mencionar a forma que conseguiu a quantidade pantagruélica de informações sobre como se forma um kantigiti. Sua participação na entrega de um terrorista ao governo francês, em troca do material que havia conseguido, era um segredo que, em sua opinião, deveria ficar guardado para sempre.

— Aos poucos a curiosidade foi virando uma espécie de obsessão, JB. Você não faz ideia das coisas que eles são capazes de fazer… Durante três meses, todas as noites, antes de dormir, eu estudava algumas horas sobre o assunto. Isso até que um dia alguém me arrancou do meu corpo.

— Uma projeção lúcida?

— Sim. Uma como eu nunca tive antes.

JB tinha projeções astrais lúcidas desde os cinco anos de idade. Quando o assunto era plano astral, havia poucos mais versados na matéria do que ele. E se Mei Mei estivesse alucinando, ele seria o primeiro a saber identificar isso.

Atrás de si, ouvem a risada de uma criança de não mais de quatro anos rolando na grama com um labrador.

— Eu não tenho a sua experiência, JB, nem o seu talento. Mas eu sei que a quantidade energia anímica para arrancar alguém do próprio corpo é imensa. E eu estava lúcida. Perfeitamente lúcida. Em seguida ele veio. Estatura mediana, todo vestido de cinza, cabelos frisados longos, pele escura, um rosto antigo, quase aborígene, e o sorriso mais sincero que eu já vi. Eu não perguntei, mas ele disse que seu nome era Adapa.

JB respira fundo.

— Adapa?

— Sim.

— Mas Adapa é o fundador da n’krismo. Ele é o homem santo dos cinzentos. Você está me dizendo que Adapa falou com você?

— Sim.

— O que você diria se eu dissesse pra você que Cristo, Maomé, Moisés ou Buda, apareceram para mim e que conversaram comigo?

— Eu diria que você está delirando.

— Então? — Ele pergunta de forma quase irônica.

— Eu não estou delirando, JB.

— Digamos que eu acredite que Adapa apareceu para você. O que ele queria?

— Ser meu professor. E durante esses últimos meses foi isso que ele foi, meu professor.

— Adapa foi o primeiro cinzento que se tem notícia. Le pionnier, é como os cinzentos o chamam. Você tem ideia do que é ser ensinada pelo primeiro entre eles?

Há um breve silêncio.

— Você acredita em mim?

— Eu acredito que você acredita que a Adapa é seu professor.

— Então vai me ajudar?

— Você ainda não me disse o que eu devo fazer.

— Adapa disse que existe uma ilha no mar Egeu. É nessa ilha que os kantigitis são feitos. Eu preciso que você me leve até lá. Preciso que me acompanhe. Preciso que seja minha sombra.

Internamente, JB liga algum mecanismo que muda sua percepção do mundo. Sem sair do lugar, parte de sua mente sintoniza no que as pessoas conheciam como plano espiritual, mas que ele preferia chamar simplesmente de plano extrafísico.

No plano extra físico ele via pessoas que pareciam não saber que estavam mortas havia muito tempo. Casas ocupavam o mesmo lugar que prédios. Demolidas no plano físico, essas continuavam intactas no plano extra físico. Algumas pessoas exibiam ferimentos associados ao momento de sua morte, outras, estranhamente, mudavam a aparência física. De homem para mulher, de idoso para jovem, de jovem para idoso, e alguns, raros, transformavam-se em animais. A visão desse mundo de plasticidade infinita enlouqueceria qualquer pessoa, mas não Joseph Pacheco Brown.

Por parte de pai, chinês, por parte de mãe, americano. Do pai, ele havia herdado o amor as artes marciais, da mãe, uma sacerdotisa vodu, ele havia herdado suas estranhas habilidades para ver coisas que ninguém podia ver. Aos cinco anos de idade, os amigos de sua mãe, envolvidos na religião vodu, chamavam-no de prodígio e profetizavam que ele seria o maior dos maiores sacerdotes vodus. Mas o pai e o próprio JB, não simpatizavam com a ideia. E ele, desde sempre, recusou-se a ter qualquer participação na religião de sua mãe. “Você está tentando fugir do seu destino, meu filho”, dizia-lhe sua mãe. E ele respondia, com infinita paciência, “Ninguém foge do seu destino, minha mãe. A senhora me ensinou isso”. Entretanto, chegou o dia em que a pressão para que ele tomasse seu lugar na religião que ele respeitava, mas não queria participar, tornou-se insuportável. E, aos doze anos, ele resolveu dar um basta.

Seu pai costumava dizer-lhe que, às vezes, uma pessoa é muito boa em uma coisa, mesmo não gostando de fazê-la. E foi assim que JB, aos doze anos, fez algo que o transformou em uma lenda entre os maiores sacerdotes vodus da América. Fora de seu corpo, ele visitou cada um dos que o pressionavam para tomar seu lugar na religião. E a cada um deles, JB demonstrou que não queria ser um sacerdote mas que, se fosse necessário, ele sabia se defender, e muito bem. E em cada um deles, em suas costas, ele tatuou a frase “Você não dirá nenhum mal, não verá nenhum mal e não ouvirá nenhum mal”.

Depois disso, sua mãe e os amigos de sua mãe, nunca mais tocaram no assunto.

Se aos doze anos, ele era um prodígio, do que ele seria capaz, agora, com décadas de experiência? Ainda assim, com toda sua habilidade e experiência, ele receia encontrar algo que não esteja preparado para encontrar. Ele já havia ouvido muitas coisas sobre Adapa. Entre outras coisas, suspeitava-se que Adapa era imortal. Que ele estaria em algum lugar, escondido, acompanhando o resultado de sua criação, o n’krismo, a religião cinzenta, também conhecida como a não-religião. A força anímica de alguém assim deveria ser impressionante. Desta forma, todo cuidado era pouco.

Ele se concentra e começa a procurar algum indício de que Mei Mei não estava delirando.

É então que do outro lado da rua ele vê uma figura bonachona, vestida de branco, de pele escura com os cabelos na altura do ombro, com um rosto aborígene a acenar para ele.

É isso aí, sou eu mesmo”, lhe projetava na mente a figura com um sorriso tranquilo e irretocável.

A imagem não dura mais que uma fração de segundos.

Qualquer dúvida que JB pudesse ter se desfaz na mesma fração de segundos em que ele o vê.

Um imenso relâmpago em forma de chuveiro acende o final da tarde.

Um trovão ensurdecedor ressoa e intimida até mesmo os mais paulistanos dos paulistanos.

— Você o viu — diz Mei Mei, confiante.

— Sim.


CAPÍTULO 3


Seis meses depois


Existem escadas de mármore que, aparentemente, levam a lugar nenhum. Elas têm cento e vinte e cinco degraus cada. Cada degrau adornado com símbolos kabalistas. Acabam elas, subitamente, em paredes maciças cobertas de mármore branco. E, para quem as vê pela primeira vez, dão a impressão de que um louco as construiu. Escadas que levam a lugar nenhum, pedras angulares, esquadros, pirâmides encimadas por olhos cintilantes e esculturas de romãs abertas com sementes espalhadas ao redor, caveiras de mármore aqui e ali, torres ornadas com esculturas de águias e galos majestosos, paredes enfeitadas com chaves, lanternas, sóis, estrelas de seis pontas e uma infinidade de outros símbolos — tudo em alto-relevo. Quem visse essas coisas em um único lugar, pensaria que tais ornamentações, aparentemente desconexas, seriam obra de algum artista ligeiramente alterado por algum tipo de droga. Safira? A droga mais popular do momento? Quem sabe? E se esses símbolos, e se essas construções povoassem uma escola? Isso pareceria ainda mais bizarro, não é? Pareceria, se a escola em questão não fosse o Liceu Guarda Pretoriana da orgulhosa cidade de São Paulo.

Era o final da tarde.

Em uma dessas escadas de mármore, que se projetavam em direção aos diversos prédios da escola, como se serpentes estivessem a procurar algo, e que terminavam seus degraus em paredes impenetráveis, Celeste Gandolfini Pastore olhava para o vai e vem de seus colegas.

Um de seus passatempos favoritos era o de ficar sentada ali, nas escadas jacobinas do setor norte, olhando o gramado verde e extenso, salpicado de romãzeiras e ipês.

Era o início de julho, o início das férias, e os ipês sorriam flores amarelo-ouro, brancas, roxas e azuis. Estas últimas, fruto de engenharia genética.

No próximo ano, a primeira geração de ipês com flores rosas despontaria naqueles gramados, mas Celeste não estaria lá para ver isso acontecer. Afinal, o ano de 2364 era seu último ano naquela escola.

Ainda haveria seis meses para aproveitar ao máximo aquele lugar, mas ela já sentia uma saudade que, por vezes, lhe fazia mergulhar em minutos de melancolia.

Quando ela disse ao seu pai, o senador Álvaro Gandolfini Pastore, que sentiria saudade do GP, nome pelo qual o Guarda Pretoriana era comumente conhecido, seu pai sorriu e a abraçou.

— Eu sei como é; mas não se preocupe. Você terá um futuro brilhante, e todos os seus amigos estarão sempre por perto. Acredite, saudade do lugar, você pode até ter, mas dos seus amigos, isso nunca vai acontecer. Eles estarão sempre ao seu lado. Mas eu não preciso dizer isso pra você, preciso? — Disse ele, procurando alguma mancha, fio de cabelo, ou qualquer coisa que maculasse o impecável preto do blazer de escola da sua filha.

Não pai, não precisa” — com a mão no queixo, sentada no sétimo degrau da escada, ela respondeu para si mesma.

Seus amigos sempre estariam ao seu lado, até o final de sua vida, ou da deles. Mas como ela e seu pai tinham tanta certeza disso?

Bem, o Liceu Guarda Pretoriana não era simplesmente uma escola. Ela era também uma das sete joias iluminatti espalhadas pelo mundo. Nova York, Paris, Londres, Amsterdam, Roma e Madrid abrigavam as outras seis.

E era de conhecimento público de que aquelas eram escolas financiadas e geridas por iluminattis? Sim.

A cinquenta metros da escada na qual ela estava sentada, havia sido erigida a majestosa estátua do grão-mestre Janos Soros Caput Draconis. O fundador das Guardas Pretorianas, mais conhecido, principalmente, por transformar os iluminatti, de uma fantasia alimentada por teóricos de conspirações, em uma realidade, no início, aterradora para o mundo. Seu pronunciamento, direcionado ao mundo, no cyberespaço, feito durante a abertura do pregão da bolsa digital de valores, em trinta de maio de 2152, chocou o mundo e trouxe junto consigo desconfiança, medo e, estranhamente, uma dose de alívio a todas às pessoas comuns que se imaginavam como peças de um joguete jogado por poderosas forças invisíveis que lhe escapavam à compreensão. É bem verdade que o alívio era infundado. Pois os iluminatti, ao mostrarem sua face ao mundo, não possuíam nenhuma intenção de abrir mão de sua influência e poder. Janos e os seus haviam revelado seu segredo não porque queriam, mas sim, porque não era mais possível agir nas sombras. As sombras, em que eles por milênios haviam transitado e vivido confortavelmente, estavam agora manchadas. Manchadas por uma luz incômoda e cinzenta. O n’krismo, a religião cinzenta, e sua rápida ascensão e estabelecimento, haviam mudado para sempre o jogo de poder no mundo. Era hora de abandonar a Era lunar e, forçosamente, sob a direção de Janos, caminhar para uma Era solar.

Mas como exatamente os iluminattis convenceram o mundo de que não eram uma ameaça?

Alguém já disse que para enganar alguém é necessário alguém que queira ser enganado. E imaginem só? Bilhões de pessoas queriam ser enganadas por Janos; pois só isso explicaria o fato de elas acreditarem em sua propaganda de que os iluminatti eram uma força do bem que, para não perturbar a vida do cidadão comum, agia nas sombras. Mas que apesar disso, seu intuito não era nenhum outro que não fosse o progresso da humanidade. A mensagem era rasa e vaga, para dizer o mínimo. Ainda assim, surpreendente, foi aceita sem maiores problemas. E os inimigos seculares dos iluminatti, o que fizeram? Nada. Isso mesmo, nada. O motivo? O papel de força maligna com uma agenda a ser temida era agora ocupado por outro grupo, os cinzentos. Todas as teorias de conspiração que um dia haviam rodeado a famosa pirâmide encimada com seu olho que tudo vê, voavam agora ao redor da torre Eiffel. Torre que um dia havia sido odiada pelos Parisienses, depois amada, e, séculos depois, transformada no símbolo imagético máximo da força n’kriana no mundo.

Celeste estaria rodeada por seus amigos para sempre, pois aquele era um lugar para iluminattis. E isso significava que os laços feitos ali eram feitos com fitas de aço e amarrados com laços de solda. Abandonar aquele meio era não só algo impossível, mas também fatal. Aos olhos do público, ela e aqueles ao seu redor representavam a última trincheira contra a dominação cinzenta do mundo. Ou, pelo menos, era o que era vendido às massas.

“No grande esquema das coisas, você está sendo formada para jogar, não para ser uma peça, minha querida”, de novo a voz de seu pai soava em sua cabeça.

Um adolescente alto, de rosto magro, pele cor de azeite, cabelos muito pretos e olhos castanhos claros se aproxima coma elegância de um dançarino.

— Ela vai demorar muito? — Ele pergunta.

— Você não é tipo dela — responde Celeste.

— Céu, eu sou o tipo de todas as mulheres. Enfia isso na sua cabeça — ele fala como se estivesse mencionando o óbvio.

O olhar dela está fixado em um agrupamento de ipês rosa.

— Se você é o tipo de todas, em um mundo com dois terços de mulheres, como é que ainda não arranjou uma namorada?

— Você também não tem namorado — ele diz olhando para a entrada dos imensos portões de ferro da escola.

— Mas diferente de você eu escolhi não ter.

— Como você sabe que eu também não escolhi não ter?

— Ué? Porque você é você. Bonitinho, mas fútil e desinteressante.

— Os antigos diziam que quem desdenha quer comprar.

— Não estou desdenhando — ela estica a palavra na boca — estou apenas constatando o que vejo na minha frente.

O bolso dele vibra.

Um pequeno zscinolex do tamanho de uma mão é retirado do bolso.

Através dele, ele vê a imagem de Gloria Sanson saindo de um flyer preto cromado.

— Ela chegou — ele diz.

— Como você sabe?

— Coloquei um drone seguindo ela desde a semana passada.

Celeste encerra sua contemplação dos ipês.

— Eu não acredito. Isso é doentio, pra não dizer patético, até pra você, Patrus. Você não tem amor próprio? Que apelação.

Ele sorri.

— Sabe como é que é. No amor e na guerra, vale tudo.

— Nossa, que frase feita horrível.

— É frase feita, mas é verdade.

— Ela tem idade pra ser sua mãe.

— Idade pra ser minha mãe? Sim, é possível. Ela tem idade pra ser minha mãe, o corpo de uma deusa e um rosto de modelo. Qual dessas coisas você acha que eu vou dar mais importância? — Ele sorri um sorriso malicioso.

— Você é repulsivo.

— Tenho dezesseis anos, ser repulsivo é o que se espera de mim. E não esqueça, você disse que ia me apresentar a ela.

— Outro dia.

— Você deu sua palavra Gandolfini — ele diz usando um tom de voz grave.

Ela entende o recado. A palavra de um iluminatti era o seu bem mais precioso. Sem ela, não era possível ganhar ou manter a face.

Ela se levanta e começa a caminhar em direção ao portão de entrada.

Ele a segue com as mãos para trás em uma postura quase militar.

Ao pisar na imensa passarela com piso de mármore quadriculado preto e branco, que ligava o prédio principal ao portal, ela nota no chão uma despreocupada flor amarela de ipê. Ela estava ali, intocada. A escola chamava-se Guarda Pretoriana e as implicações desse nome eram muitas. Mas paradoxalmente, ninguém naquela escola jamais pisaria em uma flor jogada no chão.

Ela para, se abaixa, pega a flor e a coloca no cabelo.

O ato não passa despercebido por Patrus, mas ele esconde com perfeição qualquer sentimento que aquilo tivesse suscitado em sua alma.

Eles atravessam os imensos portões da escola.

A guarda-costas, Gloria Sanson, está esperando ao lado do flyer preto cromado.

— Oi, Gloria! Chegou bem na hora — fala Celeste de uma forma tão juvenil que fez Gloria sorrir involuntariamente — Ah, e esse é o Patrus, ele é seu stalker, hã, quer dizer — ela finge ter se enganado com a palavra — seu fã.

— A pontualidade é uma qualidade admirável — diz Patrus ao se aproximar de Gloria e estender a mão para um cumprimento — Olá! Meu nome é Patrus Patulidu.

Gloria retribuiu o gesto.

— É seu nome artístico? — Ela brinca.

Ele é pego de surpresa pela brincadeira dela.

— Ãh, não. Não é um nome artístico, mas…. Huuumm poderia ser — ele faz uma anotação mental, e logo volta ao modo de funcionamento adolescente iluminatti — Os Patulidu são uma das mais antigas famílias iluminatti que se tem notícia — ele responde recuperado da brincadeira.

— É mesmo? — A pergunta é sincera, mas ele falha em perceber a sincera ignorância de Gloria.

— Sim, é.

Celeste não diz nada, seu olhar diz tudo. “Eu te disse”.

— Seja lá quanto os Gandolfini estão lhe pagando, eu posso pagar mais — ele diz confiante.

— Tem certeza? Eles são muito ricos — ela arqueia a sobrancelha direita.

— Todos que estudam nesta escola são muito ricos.

— É, mas esses Gandolfini são imoralmente ricos.

— Ser imoralmente, ou podre de rico, é um pré-requisito para estudar aqui — ele constata de forma quase blasé.

— Bem, já está na minha hora — Gloria diz já encerrando a conversa — Podemos ir, senhorita Gandolfini?

— Sim, Gloria.

A porta do banco de passageiros do flyer abre para cima e Celeste entra. Mas não antes de lançar outro olhar para Patrus que dizia “Eu te disse”.

— Foi um prazer conhecê-la, senhorita Sanson.

— O prazer foi todo meu, senhor podre de rico.

Gloria entra no flyer e senta-se ao lado de Celeste. Através da janela, Patrus vê as duas acenando para ele de forma despreocupada.

O flyer, conduzido por uma I.A. chamada Beny, se afasta e vai em direção a uma via principal que levaria para a Zona Sul de São Paulo.

Quando o flyer começa a acelerar, Celeste tira do bolso seu zscinolex de mão e diz em japonês, “Eu te disse, eu te disse, eu te disse, eu te disse”.

— Enviar para Patrus — ela fala.

Na escola, no portão principal, Patrus recebe uma sequência de “eu te disse” escrita em hiragana. E em japonês ele responde — Você está é com ciúmes.

— Ciúmes? Acho que abstinência sexual está afetando seu discernimento.

— Abstinência sexual não foi e nunca será um problema para mim, Gandolfini.

— Se você está dizendo….

Ela faz uma cara de deboche e encerra a ligação.

Do outro lado da linha, os lábios de Patrus se mechem, mas nenhum som é proferido. Mas claramente, o desenho de seus lábios diz, “Vaca! ”.

— Seu amigo? — Gloria pergunta.

— Não.

— Tem certeza?

— Como assim, tem certeza?

— Eu senti uma certa tensão entre vocês.

— Somos adolescentes. Tensão é o que não falta entre adolescentes.

Breve silêncio.

— Limparam a passarela xadrez — diz Gloria.

— Sim.

— Ainda bem que existem os robôs de limpeza. Limpar todos aqueles quadrados brancos no braço deve ser de matar.

Breve silêncio.

— Você sabe que aquela passarela tem um significado, não sabe?

— Pra mim é um tabuleiro de xadrez, não é?

— Também pode ser, mas há um significado mais profundo que esse — Celeste fala admirando as plantações de alfazema.

— E qual é? — Glória pergunta, genuinamente interessada.

— Bem e mal. Os dois caminhando juntos, inseparáveis.

Gloria olha para Celeste com um semblante que dizia, “Você só tem dezesseis anos, você não deveria estar falando como um mestre Zen ou coisa parecida, garota”.


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