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Excerpt for Comandante Serralves - Expansão by , available in its entirety at Smashwords







Comandante Serralves


Expansão




























Ficha Técnica


EDIÇÕES IMAGINAUTA

Título: Serralves - Expansão

Autoria: Rui Bastos, Fernando Queirós, Ricardo Dias

Edição: Carlos Silva

Revisão: Inês Montenegro

Capa e ilustração da capa: Edgar Ascensão


ISBN: 978-989-98145-4-7

Depósito Legal: 438764/18

1ª edição Janeiro 2018


© 2018 Imaginauta

Todos os direitos reservados para a presente edição


Contactos:

www.imaginauta.net

correio@imaginauta.net




Outras obras do

Universo Comandante Serralves




Comandante Serralves: Despojos de Guerra

(Antologia de contos)


Pouso Forçado

(RPG – Jogo de personagens)











Índice


Página 7

Cronologia


Página 13

O entrelaçamento electroquântico de que são feitas as lendas


Página 27

Visita de médico


Página 47

Pesadelo a 40 anos-luz


Cronologia


0 - (tempo relativo aproximado em anos) – Primeiro contacto entre a Humanidade e seres extraterrestres dá-se em Tóquio, a maior e mais populosa cidade da altura. Os seres têm a aparência de alforrecas gigantes luminescentes e habitam em meio aquoso, em naves geracionais, escavadas em asteroides. São chamados pelos media de Aquontes. Após se verificar que as intenções dos alienígenas são pacíficas, os diversos países organizam comitivas de boas vindas.


1 – Os aquontes encontram-se espalhados por toda a terra, não favorecendo nenhum povo. Tem-se agora a noção que os aquontes viajam pelo universo a velocidades sub-luminares, em busca de espécies inteligentes para trocas culturais. Inicia-se uma era de aceleração científica e técnica, que catalisa a exploração espacial.


31 – Quase todos aquontes partem da Terra na nave em que chegaram em busca de novos mundos; menos de uma dezena de permanece na Terra. Os restantes aquontes que não foram na nave original, nem ficaram na Terra, juntam-se a uma tripulação de humanos e partem numa nave geracional conjunta em busca de novas raças inteligentes.


42 – Primeiras colónias autosuficientes instaladas em Marte.


42 – As maiores cidades do Mundo são devastadas num ataque relâmpago vindo do espaço. Naves em forma de cogumelo aterram, saindo delas uma nova espécie alienígena. São chamados de Pahoehoentes, devido aos seus corpos negros em forma de novelo couraçado fazerem lembrar a lava pahoehoe.

É criada um exército conjunto a nível Mundial a que é chamado de União Planetária. Depressa se descobre que os invasores tentam preservar a habitabilidade do planeta, pelo que se especula que seja para essa função que o querem.


49 – A União Planetária consegue pressionar as forças Pahoehoentes para fora da Terra. Os combates dão-se agora maioritariamente no espaço, ao mesmo tempo que prosseguem no planeta. A grande maioria das cidades é destruída ou abandonada.


50 – Um soldado de nome Serralves alista-se no exército.


53 – É dado como morto um dos melhores xenocientistas da União Planetária. Hashimoto desaparece na explosão da única nave-cogumelo capturada em toda a guerra, durante o seu trabalho de descodificação de tecnologia pahoehoente.


64 – A União Planetária dá lugar à Aliança Humana, que une todos os povos humanos sob um único líder e único projecto. Os últimos Pahoehoentes são pressionados para lá de Urano.

– A primeira mega-cidade humana é inaugurada, como um exemplo para o futuro.

– É criado um tribunal especial para condenar os traidores da União Planetária e criminosos de guerra.

65 - É criada a língua única pela Aliança Humana, para facilitar as comunicações. Começa uma era próspera para a Humanidade. 67 – O presidente em funções é morto na confusão de um atentado à bomba falhado. O assassino nunca é encontrado. O chefe dos ministros é eleito nesse mesmo ano para ocupar o cargo de presidente.


68- O tribunal especial alarga a sua área de actuação, perseguindo os traidores da Aliança Humana. São considerados traidores à Aliança todos aqueles que activamente se desviem dos valores de unidade e igualdade (padronização). São criadas cidades para educação dos dissidentes. A população em geral apoia as medidas, face à prosperidade que elas trazem.


69 – Nascem oficialmente os primeiros humanos não-terrestres.


71 – Ocorre um motim bem-sucedido numa das cidades de educação de dissidentes, que se declara uma Nação Livre. Correm boatos de um herói que se identifica como Comandante Serralves. Essas notícias são desvalorizadas nas cidades da Aliança na Terra.


75 – Uma a uma, as cidades de educação de dissidentes foram libertadas pelas Nações Livres. Os dissidentes libertados desapareceram. Rumores dizem que fundaram cidades para si. A Aliança Humana decide focar a sua atenção nos problemas nas colónias humanas em planetas extraterrestres, que exigem representatividade. Lançado o programa de apoio às colónias.


76 – Após o falhanço no entendimento entre o governo da Aliança e as comissões de trabalhadores das colónias, surgem acções de luta violentas (manifestações violentas, greves, ataques) que não são comunicadas à Terra.

– As colónias são isoladas, sendo as entradas e saídas controladas. O programa de apoio é intensificado como meio da Aliança alicerçar a sua influência.


78 – O controlo das colónias é passado de empresas pertencentes ao governo para o governo directamente, sendo os habitantes destas considerados cidadãos do planeta e não apenas trabalhadores emigrados da Terra. O programa de apoio, apesar de sofrer ataques de rebeldes, é bem recebido e permite a melhoria significativa das colónias.


88 – Os movimentos separatistas alcançam a vitória nas negociações, conquistando para as colónias direitos iguais às cidades terrestres (e.g. órgãos de soberania regionais, direito a terem o número de filhos que puderem suportar, livre circulação de produtos e bens, etc…deixam de ser colónias puramente de trabalho).

– A Terra é classificada de colónia, em igualdade com as restantes povoações no Sistema Solar.

– O Presidente da Aliança muda o governo para a órbita Terrestre.

– É iniciada a construção da Bastião, a maior nave da Aliança que servirá de Estado Maior itinerante.


90 – A nave é roubada por um grupo terrorista. A actividade dissidente aumenta em volume e efeitos.

– Em retaliação, a Aliança descobre e ataca várias cidades livres, que são acusadas de conspiração contra a Humanidade.

– São conhecidos alguns dos líderes das auto-proclamadas Nações Livres, ao mesmo tempo que ressurgem os boatos acerca de um rebelde auto-intitulado de Comandante Serralves.


O entrelaçamento electroquântico de que são feitas as lendas


Rui Bastos









A sala cheirava a hospital. Por mais clandestina que fosse, com tubos a apontar em todas as direcções, e estranhas máquinas a zumbir e a apitar por todo o lado, o cheiro era inconfundível. Sobrepunha-se ao óleo e ao suor e esforçava-se por combater com o calor abafado que se fazia sentir.


Sentado em algo parecido com um sofá, Miguel tentava em vão evitar os nervos. Os dois homens a discutir à sua frente não ajudavam.


“Tens a certeza que funciona?” perguntou o mais jovem, de olhos verdes, barba à là Souvarov e uniforme de oficial.

“Claro que não.” respondeu o outro, um japonês de meia idade com implantes robóticos a irromperem-lhe da pele um pouco por todo o lado. “Mas é a nossa melhor hipótese.”

“Quão seguro é?”

“Bem... Funciona perfeitamente em ratos.”

O olhar que o jovem oficial lançou ao japonês só podia ser descrito como assassino. Miguel já só esperava que nenhum dos homens se lembrasse dele ali sentado. Sabia que ia ter de interagir, mais tarde ou mais cedo. Quanto mais tarde, melhor, no entanto.

“Além disso, tenho plena confiança no procedimento.” disse o japonês com toda a seriedade, por entre um emaranhado de fios.

“Basta olhar para ti ver o bom resultado que essa confiança costuma ter.”

Foi a vez do japonês olhar intensamente para o oficial, que não conseguiu evitar um sorriso de quem está ha­bituado a arreliar pessoas, mas que não se espalhou pelo resto da cara. Já tinha visto muita coisa, apesar de ser claramente jovem.

A sala tremeu e ouviu-se um estrondo do lado de fora. Alguns frascos de vidro caíram ao chão, partiram-se, e uma máquina tombou para trás. Miguel saltou da cadeira e aproximou-se dos dois homens, com os sentidos alerta. O japonês e o oficial limitaram-se a olhar um para o outro, em silêncio. Quando nada mais aconteceu, olharam para Miguel, que ainda estava à espera do próximo embate.

“Olá rapaz.”

Enquanto fazia continência, Miguel tentava lembrar-se do nome que lhe tinham dito antes de o deixarem ali. O oficial olhou para ele e sorriu levemente, enquanto o japonês se atarefava a desviar os vidros para um canto.

“Sabes quem eu sou?”

Miguel engoliu em seco.

“Não me lembro do nome, senhor.”

“Serralves.”, disse o oficial, os olhos verdes fixos nos de Miguel, “Aquele é o Hashimoto. Proto-ciborgue, nano-cirurgião, um génio e… louco.

“Eu ouvi isso!” gritou o japonês do outro lado da sala, enquanto se debruçava sobre a máquina tombada.

“Ignora-o.”, Serralves sorriu, “Ele chegou a explicar-te alguma coisa, antes de eu chegar?”

“Não, senhor.”

Serralves suspirou. Conduziu Miguel até ao cadeirão, indicou-lhe que se sentasse, tirou uma geringoça in­decifrável de cima de um banco e puxou-o para si.

“E antes de vires, alguém te explicou alguma coisa?”

“Não… Não propriamente, senhor.”

“Como assim?”

Antes que Miguel pudesse responder, Hashimoto chamou por Serralves, que não teve outra hipótese além de ir ver o que se passava. Enquanto os dois discutiam e arrastavam coisas de um lado para o outro, Miguel ia ficando mais nervoso. Ainda há algumas horas Miguel estava a ser examinado pelo enfermeiro do pelotão, sob a atenta super­visão do seu capitão e no fim de uma fila de outros solda­dos como ele.

“Queres ajudar a ganhar a guerra, não queres, soldado?”

Sem saber o que o esperava, Miguel respondeu, “Sim, capitão!”.

“Custe o que custar?”

Teve que engolir em seco, antes de responder novamente, “Sim, capitão!”.

“É um candidato viável, capitão.”, disse o enfermeiro por fim.

“Ouviste soldado?”

Miguel tinha ouvido, e tinha ficado ansioso, mas enquanto o grupo de escolhidos acompanhava o capitão para que tudo lhes fosse explicado, um ataque surpresa dos pahoehoentes dizimou o pelotão. A última coisa de que se lembrava era do capitão a ser cortado em dois, do enfermeiro a puxá-lo bruscamente para trás e a obrigá-lo a ficar trancado e escondido numa sala.

“Vou chamar alguém para te vir buscar.”

“Tenho que ir ajudar os outros!”

“Não viste o que acabou de acontecer? Não há ‘outros’ para ajudar! Tens de ficar aqui. É uma ordem!”

E dito isso, voltou a correr na direcção da batalha. Nunca mais o viu. E antes que os alienígenas destruíssem a base por completo, chegaram os reforços. Miguel, aterrorizado, não foi capaz de sair do sítio. Nunca tinha visto um pahoehoente antes. Foi preciso um grupo de soldados dar com ele e levá-lo, por entre os destroços e os corpos dos seus camaradas, até uma nave camuflada que o transportou para o interior.

Lá dentro esperava-o o japonês, que se limitou a apontar-lhe o cadeirão enquanto andava de um lado para o outro a preparar qualquer coisa.

“Rapaz?”

Miguel despertou do transe em que se encontrava e viu Serralves e Hashimoto especados à sua frente.

“Estás bem?”

“Sim, senhor, peço desculpa.”

“Aqui o Hashimoto disse-me que te chamas Miguel?”

“Sim, senhor.”

“Não temos tempo a perder, os meus homens precisam de mim. Não te preocupes, eu obriguei-o a programar a explicação na sua matriz neural.”, olhou para o médico, “Irá fazê-lo como deve ser.”

Sem saber o que responder, Miguel olhou de um para o outro e não disse nada. Serralves suspirou, encolheu os ombros e saiu da sala. Ouviu-se o barulho de um transportador, e depois silêncio. Hashimoto focou-se em evitá-lo enquanto remexia em tudo o que se conseguisse lembrar de remexer. Passaram-se alguns segundos. E alguns minutos.

“Porquê eu?”

“Precisávamos de alguém.” respondeu o japonês, pragmático. As suas mãos pararam a meio do que estavam a fazer e caíram para o lado. Sentou-se no banco deixado por Serralves, verdadeiramente quieto pela primeira vez desde que o tinha visto. “Faz as perguntas.”

Desarmado pela mudança de registo, Miguel ficou sem saber o que dizer. Manteve o olhar perdido no japonês durante largos segundos, e só então perguntou “O que se está a passar?”

“Temos um plano para ganhar a guerra. E tu fazes parte dele.”

“E se eu não quiser?”

“Não tens grande escolha.”

“Porquê?”, perguntou Miguel, confuso. Não conseguia perceber onde é que o outro homem queria chegar.

“O momento chegou. Não temos tempo de procurar mais ninguém. Não és o candidato perfeito... Mas deves ser suficiente.”

“Suficiente?”

“Sim.”, respondeu simplesmente o japonês. A sua expressão era indecifrável.

“O que é que me vão fazer?”

Hashimoto hesitou uns instantes antes de responder. “Vou entrelaçar o campo electroquântico do teu sis­tema nervoso com o do Serralves.”

“E?” perguntou Miguel, de sobrolho erguido.

“E quando ele morrer as tuas sinapses vão ser obrigadas a espelhar as dele.”

“Isso quer dizer que vou ficar a pensar como ele?”

O silêncio do japonês arrastou-se o suficiente para se tornar perturbador. Miguel conseguia ver as pupilas de Hashimoto a dilatarem e a contraírem rapidamente, enquanto o resto do seu corpo se mantinha perfeitamente imóvel.

“Quer dizer que vais pensar, agir, sentir e reagir como ele. Para todos os efeitos vais ser o Serralves com a cara e as memórias de outra pessoa.”

“Por que raio?!”

Hashimoto levantou-se e retomou a actividade frenética por toda a sala. Ajustou monitores, desviou cabos, mudou máquinas de sítio, preparou instrumentos. Miguel levantou-se e bloqueou-lhe o caminho. Olharam-se duramente.

“A frota do Serralves vai destruir o posto avançado dos pahoehoentes.”

Sem perceber o porquê da mudança de assunto, Miguel não conseguiu evitar ficar surpreendido. A expressão na cara do japonês era uma de verdadeiro pesar, a primeira emoção honesta que via no homem desde que ali chegara. Durou apenas alguns segundos.

“Anda, senta-te ali.”, disse Hashimoto, apontando para o que parecia ser uma cadeira de dentista no centro da sala. Todos os aparelhos, aparentemente espalhados de forma aleatória, estavam afinal a apontar para aquela cadeira.

“Nem pensar. Vocês são todos loucos!”

“Todos não. Eu? Talvez”, Hashimoto fez uma pausa e abriu os braços para mostrar todos os apetrechos cibernéticos que tinha espalhados pelo corpo, “Mas não vejo a relevância disso. Agora senta-te.”

Miguel sentou-se, aturdido.

“Como eu estava a dizer, o Serralves vai levar uma frota e destruir o posto mais avançado dos pahoehoentes. A última vaga de ataques desses nojentos precipitou tudo.”

“Mas...”

“Cala-te!”, exclamou Hashimoto, “Ainda não percebeste? É um ataque suicida e–”, antes que o japonês aca­basse a frase, voltou a ouvir-se o barulho do transportador e Serralves entrou na sala, com um ar visivelmente cansado.

“Mais uma investida. Já está tudo controlado. Como estão as coisas aqui?”

Miguel e o médico olharam especados para Serralves, que piscou os olhos, sem perceber o que se passava.

“Estava...”, começou Hashimoto, “Estava agora mesmo a explicar ao miúdo qual é o plano.”

“Ah, óptimo!” disse Serralves enquanto puxava o banco e se sentava à frente de Miguel, “Então já sabes porque precisamos de ti. Não gosto muito de te pedir isto... Só que não temos outra hipótese.”, engoliu em seco, “Precisamos de criar uma lenda.”

“E para isso vão mexer no meu cérebro?!” gritou Miguel repentinamente, incapaz de aguentar a fúria e incredulidade que cresciam dentro dele.

“No teu...”, Serralves virou-se na direcção do japonês, “Queres explicar, Hashimoto?”

“Eu...”

“HASHIMOTO!”

O japonês virou-se de costas para os outros dois homens, pousou os cotovelos numa bancada de trabalho re­pleta de fios e pequenos circuitos, e mergulhou a cara nas mãos.

“Mudar a cara não ia ser suficiente, Serralves...”

“O que queres dizer com isso?”

Miguel, mais calmo, respondeu antes de Hashimoto, “Ele disse que ia obrigar o meu cérebro a copiar o seu, senhor.”

“O quê?”

“Sim, Serralves, é exactamente isso. Entrelançamento electroquântico. Fui eu que desenvolvi. É perfeito. Vai-se tornar verdadeiramente em ti, no momento em que morreres.”

Em vez de responder, Serralves levantou-se abruptamente e levantou Hashimoto pelo pescoço.

“Estou farto das tuas brincadeiras, Hashimoto... Queres ser acusado de traição?”

“Foi… exactamente… isto...”, começou o japonês, interrompido por Serralves que, furioso, apertou ainda mais as mãos em redor da sua garganta e cortou-lhe por completo a passagem de ar. Hashimoto parou subitamente de se mexer e depois puxou uma pequena alavanca meio dis­farçada no braço esquerdo. Ouviu-se um leve e rápido chiar e abriu-se uma portinhola minúscula no seu peito. Pareceu ficar a respirar normalmente. “Preferia não ter de recorrer ao bypass respiratório, tu sabes que ele encrava.”

“Cala-te.”

Miguel, completamente aturdido, já não sabia o que havia de fazer.

“Queres que te explique o que se passa, ou não?”, perguntou Hashimoto, que ao ver o olhar duro de Serralves, continuou, “Bem, não vou ser acusado de traição, porque as minhas ordens são exactamente estas.”

“Ordens de quem?”

“Tu sabes bem de quem.”

As mãos de Serralves abriram-se e Hashimoto voltou a ficar com os pés no chão. Verificou se tinha danos na traqueia, puxou a pequena alavança de volta para a posição inicial e ficou a respirar normalmente, de olhos fixos em Serralves.

“Ela disse isso? Porquê?”

“Disse. A razão é a que eu já te dei: só mudar a cara não chega. Não chega criar a ilusão de um Serralves eterno, nem chega criar um novo Serralves. Precisamos sempre de ti.”

“Mas...”

“Esquece. Tu sabes que temos razão.”

Desanimado, Serralves voltou a sentar-se e enterrou a cara nas mãos. Hashimoto regressou às arrumações frenéticas, e Miguel continuava a olhar para um e para outro enquanto tentava descortinar o que se passava.

“Implantes cibernéticos.” disse Serralves, ainda sem erguer a cabeça.

“O quê?”

“Implantes cibernéticos.”, repetiu, “Como os teus. Não precisamos de sacrificar inocentes.”

Miguel ia começar a falar, mas Hashimoto adiantou-se: “Não. Não era o mesmo.”

“Tem de ser!”

“Não. Olha para o meu ar. Queres ficar assim? Achas que alguém assim consegue inspirar alguém e liderar alguma coisa? Deixa-te disso.”

Serralves finalmente ergueu a cabeça. Olhou longamente para Miguel, com um ar triste e cansado. Tentou sor­rir-lhe e falhou.

“O que se está a passar afinal? O que me vão fazer?”

“Não temos outra hipótese, rapaz.” disse Serralves, em tom pesaroso, “Desculpa.”

“Não, nem pensar, eu não concordei com isto! Eu...”, exclamou Miguel enquanto se levantava da cadeira, apenas para ser interrompido por Hashimoto, que se tinha esgueirado para trás de dele e lhe tinha espetado uma agulha no pescoço, fazendo-o cair redondo.

“É o suficiente para o deixar a dormir durante várias horas.”

“Não gosto disto, Hashimoto.”

“Eu sei. Mas ambos sabemos que não temos outra hipótese. Anda, ajuda-me a deitá-lo na cadeira, e depois senta-te nao cadeirão.”

Resignado, Serralves faz o que o japonês lhe pediu: ajuda-o a deitar Miguel e depois deixa-se cair no cadeirão, de olhar triste e com um suspiro. Hashimoto ignora-o e continua as preparações.

“Devias ter-me contado.”

“Sabia que ias reagir assim.”

“Qual era o plano? Quando é que me ias dizer?”

O japonês parou o que estava a fazer.

“Nunca, não é? Nunca me ias dizer.”

A respiração leve de Miguel tornou-se no único som na sala. Hashimoto deixou cair a cabeça e Serralves fixou o olhar na parede.

“Não interessa. Se me tivessem contado, eu provavelmente teria concordado.”

Sem se mexer, o japonês reviu mentalmente a gravação da reunião em que recebera as suas ordens. Não era aquela a reacção que tinham previsto para o oficial.

“Nem tu nem... ela, estão no terreno. Não têm que ver os vossos homens a morrer uns atrás dos outros em nome de ideais que por vezes não compreendem inteiramente. Sou eu que vejo as explosões e tenho que ir aos re­gistos contar quantas pessoas iam naquela nave em es­pecífico.”, fez uma pausa, durante a qual Hashimoto ergueu a cabeça e se virou para ele, “Isto é uma solução. Abomino-a, mas já vi a alternativa. Eu vivo na alternativa. E nunca mais a quero viver.”, fechou os olhos e recostou-se, “E agora?”

Na hora seguinte, nenhum dos dois disse mais nada. A máquina que Hashimoto pôs ao lado do cadeirão inundou a sala com barulhos mecânicos, hidráulicos e bips electrónicos, enquanto fazia desenhos intricados no braço direito de Serralves com uma espessa tinta preta que era rapidamente absorvida pela pele.

Quando a máquina se desligou, Serralves olhou para o resultado e viu que as linhas pretas no seu braço tinham um aspecto estranho. Tocou-lhes com os dedos da outra mão e sentiu uma textura plástica.

“É suposto ser assim. Estás pronto.”, disse Hashimoto enquanto mudava a máquina para perto de Miguel, que continuava inconsciente. Antes de começar, no entanto, o japonês recebeu uma comunicação no seu receptor interno que o levou a parar e a fixar Serralves.

“O que foi?”, perguntou o oficial, ainda intrigado com a tatuagem cibernética.

“Está na altura.”

Serralves engoliu em seco. “Agora?”

“A informação acabou de chegar.”

“Consegues ter tudo pronto a tempo, caso... quando for preciso?”

Hashimoto virou as costas a Serralves e ligou a máquina, “Sim.”

Sem mais uma palavra, Serralves saiu a correr. A hora seguinte, enquanto a máquina fazia uma tatuagem muito parecido à de Serralves no braço de Miguel, foi uma das mais compridas para Hashimoto. Pouco depois da máquina se desligar, o jovem soldado acordou.

“...exijo falar com... Hã?”

“Deixa-te estar deitado rapaz. Já está tudo feito. É só esperar.”

Miguel deitou um olhar confuso ao japonês, e depois ao seu próprio braço. Começou a levantar-se, parou completamente a meio do movimento e voltou a cair para trás, inconsciente. Hashimoto aproximou-se, ansioso. A respiração do soldado cessou completamente durante alguns se­gundos e regressou com uma agressiva convulsão e um grito desumano. Voltou a cair, completamente inerte.

Abriu os olhos, que tinham ganho um familiar tom verde. Serralves levantou-se no seu novo corpo e procurou um espelho por entre as coisas de Hashimoto, que olhava perplexo para ele.

“Só... Hum, ah, hum hum... Dentes novos. Estranho. Ah, só mudaram os olhos.” disse, de sobrancelha erguida.

“Deve ter havido algum erro na programação dermal, quer dizer...” balbuciou o japonês, “És mesmo tu, Serralves?”

“Sim, acho que sim.” respondeu o oficial, com um sorriso e um piscar de olho para o espelho, “A cara do Serralves não me agradava, de qualquer maneira.”, concluiu, com uma expressão genuinamente confusa no olhar en­quanto o sorriso continuava a alastrar. “Não sei o que foi aquilo. Tens a certeza de que o processo é bom o sufi­ciente?”

“Claro que sim.” disse o japonês, de sobrancelha erguida.

“Vamos ver. Por agora, tenho que voltar à batalha. Tenho de ir procurar o enfermeiro que me salvou.”

“Que enfermeiro?” perguntou Hashimoto, confuso.

Serralves abanou a cabeça, enterrou-a nas mãos e inspirou fundo.

“Não sei. Acho que estou cansado. Depois falo melhor contigo, não gostei nada desta brincadeira, Hashimoto...”

“De nada.”

Sem mais uma palavra, Serralves levantou-se, virou costas e saiu da sala. Hashimoto foi até ao cadeirão e deixou-se afundar, com a cara enterrada nas mãos. Enquanto os seus implantes apitavam e zumbiam, quase em sintonia com a maquinaria da sala, sentiu-se velho e pen­sou: E agora?



Visita de Médico


Fernando Queirós









O copo deslizou pelos dedos sem força em direcção ao chão e estilhaçou-se em mil pedrinhas, espalhando água por todas as direcções. De imediato, o pequeno robô aspirador saiu da sua toca para limpar a confusão que se instalara na cozinha. Todavia, apesar de ser uma máquina de último modelo, era apenas capaz de tratar da desorganização de cacos e líquido; nada podia fazer pela desorienta­ção de George Towers.


No sofá, uma mulher acordava do seu dormitar, coçando o cabelo crespo de água salgada, mas com o sorriso lindo e a covinha do queixo hereditária que o juiz da Aliança sempre acarinhara. Ele, ainda estremunhado, esperava o momento em que daria por si a despertar do sonho, porém esse momento teimava em não chegar. A mulher sentou-se no sofá e disse:

Olá, pai. Desculpa se te acordei.

Não, não acordaste, filhota. Vim só buscar um copo de água à cozi... Abanou a cabeça, como que se chamando para o ridículo da situação. Emily! Que raio estás aqui a fazer? Estás maluca!

A custo, pelo peso da barriga de oito meses, ela levantou-se e envolveu o homem num abraço terno e longo, preenchendo o silêncio da casa e a falta de resposta. As lá­grimas escorreram pelo rosto da grávida, escondidas contra o peito do juiz. George puxou-a com mais força contra si, passando-lhe as mãos pelos cabelos.

Tinha tantas saudades, pai.

Eu também, filhota, eu também.

E, como que sentido a proximidade de um representante da Aliança, a prole de Serralves desatou aos ponta­pés dentro do útero.

Emily apoiou-se no parapeito da janela e suspirou, admirando a beleza de um dos maiores portos navais da Terra. Espalhava-se por todo o horizonte, como uma mancha de óleo no mar, dezenas e dezenas de ilhéus, muitos deles ascendendo aos céus através de elevadores espaci­ais, fazendo daquele ponto do planeta um dos maiores cru­zamentos de mercadorias do Sistema Solar. Atrás dela, Ge­orge lia a sua agenda da manhã, desmarcando compromis­sos e adiando a leitura de processos. Passara a noite com a filha, em silêncio: qualquer pergunta que lhe pudesse fa­zer seria informação que preferia não saber, nem que sou­bessem através dele. “Que tens feito?”, “Onde tens anda­do?”, “Onde está o pai do teu filho?”. Acabaram os dois por adormecer, ela no colo dele, como de antes, a ver um pro­grama qualquer de educação científica.


Em cima da mesa, o pequeno-almoço esfriava sem que nenhum dos dois o tivesse provado. Dois leões aos círculos, avaliando-se, à espera do primeiro passo em frente do adversário, sem que nenhum quisesse realmente entrar na luta.

Sabias que aqui, antigamente, no sítio onde construíram a cidade Serena, havia uma outra chamada Roter­dão, que pertencia a um país chamado Holanda? pergun­tou Emily.

George ergueu uma das sobrancelhas, a que a idade já conquistara um tom cinzento.

E isso é importante?

Para muitas nações, a Holanda era o país da liberdade, da tolerância; eles tinham um grande historial disso. Para outros, no entanto, era um país símbolo de deboche, de degradação. É engraçado como a mesma verdade é in­terpretada de maneiras diferentes, dependendo de quem olha. Não achas?

O pai fechou as notificações da Aliança e olhou a filha de soslaio.

É isso que o teu namoradinho rebelde te anda a ensinar?

Não, por acaso isto foi um certo juiz da Aliança – respondeu com azedume. Se é para isto, mais vale ir-me já embora.

A pergunta aqui que importa responder é: por que vieste visitar-me, em primeiro lugar?

Se calhar porque gosto de ti, não? respondeu, quase aos berros.

A voz do juiz era glacial, mas queimava.

Sim, claro. Emily, eu não sou idiota. Há três anos que saíste de casa, costumo receber novidades tuas através de mensagens encriptadas com meses de intervalo, a última vez que soube de ti foi durante um golpe terrorista do suposto pai dos teus filhos, e agora apareces-me aqui em casa, a meio da noite, sem aviso, grávida, e queres que eu acredite que desceste à Terra só para me visitar?

Na face de Emily um sorriso malandro rasgou-se, como que conquistando o seu espaço naquela discussão séria. O olhar suplicante havia sido substituído por um de desafio, cheio de doçura travessa.

Não foi só – disse, com ênfase na palavra “só” para te visitar, mas por que não juntar o útil ao agradável?

Oh, céus! Estás a ficar igual a ele! bradou George.

O juiz baixou a cabeça e comprimiu a cana do nariz com o indicador e o polegar, fungando com desprezo. Ou seria uma gargalhada? Seguiu-se outro soluço mudo, uma gargalhada contida. Emily não conseguiu segurar o riso. Soltou uma enxurrada de gargalhadas que se contagiou até ao pai, e em uníssono riram até as lágrimas lhes subirem aos olhos. Umas mais amargas que outras.

Não sei que fazer contigo, Emily. Não sei mesmo...

Se queres que te diga, eu também não sei que fazer comigo – gracejou. Esta bexiga está a dar comigo em doida, parece que os miúdos decidiram sentar-se em cima dela o tempo todo. Tenho de ir à casa de banho, já volto.


Mal Emily abandonou a cozinha, o assistente digital do juiz apitou para chamar a atenção do magistrado; havia uma comunicação que urgia ser lida. George assentiu com a cabeça e a documentação emergiu na superfície do aparelho conectado ao pulso do juiz, deslizando-lhe pelo braço como água digital. O juiz bateu com a mão na testa. Com toda aquela confusão da Emily quase que se ia esquecendo das mudanças no Palácio da Justiça, a razão que o le­vara àquela temporada em Serena. Os outros compromissos, para um oficial com o seu lugar na hierarquia, eram adiáveis face à inesperada visita da filha, mas aquele era simplesmente algo que não podia sacudir dos seus afaze­res. Há meses que as medidas técnicas e de segurança es­tavam a ser garantidas de modo a que a actualização dos servidores com os arquivos de todos os processos da Alian­ça pudesse ser feita com o mínimo de impacto no sistema judicial. Num impulso de adrenalina, George levantou-se da cadeira como se esta fosse feita de molas. As mudanças nos primeiros sectores iam começar dali a menos de duas horas e ele nem sequer tinha tomado banho.

Emily voltara no entretanto.

Está tudo bem, pai?

Sim, sim, lembrei-me que tenho de fazer umas coisas que não posso adiar, mas volto num instante. Eu des­pacho-me rápido. Quer dizer... se ainda cá estiveres.

Não te preocupes. Até parece que não cresci contigo e com a mãe. O dever para com a Aliança chama – tro­çou, numa voz grossa. Estou a pensar ficar cá uns dois dias, depois vou ter de voltar. George ia argumentar algo, mas o olhar carregado da filha cortou-lhe a palavra. E não, não me meto em problemas enquanto não estiveres cá. Estou grávida, pai! Não vou atentar contra a tua querida Aliança enquanto estiver sob o teu tecto, juro-te. Estou aqui por ti, está bem?

George fungou, desconfiado, mas Emily pouco lhe ligou, preferindo procurar por algo dentro da sacola que trouxera consigo. O pai espreitou, curioso, e a filha não o fez esperar mais. Com orgulho, apresentou o bloco seboso e amarelo, enrolado em papel semi transparente, ao pai. O cheiro complexo e pungente encheu a cozinha.

Antes de ires quero só que proves isto!

Que raio...

Chama-se manteiga. Gordura de leite de vaca processada. Uma especialidade de uma cidade que se dissesse o nome teria que te prender riu-se.

Gorduras de origem animal? Emily, não é lá uma escolha muito saudável... Aliás, se me deres alguma informação, posso pedir ao programa de gestão da caseira para planear uma dieta para ti.

Nem penses, pai! Em primeiro lugar, não quero que fique registado em sítio nenhum que estive aqui; em segundo lugar, não troco manteiga pelo melhor creme de gorduras vegetais que o Presidente quer que eu coma para viver muitos anos e ser muito saudável. Já pensaste? Milhares e milhares de pessoas cumprem religiosamente o programa de exercício recomendado, seguem a dieta personalizada, cultivam o percurso de vida social padrão e no final... No final morrem numa cama de hospital a sentirem-se muito estúpidas porque nem sabem bem a razão pela qual não estão saudáveis. Ao menos eu estou a dar-te oportunidade de não te sentires estúpido, quando chegar a tua hora vais saber que a culpa é da tua filha, que te moeu o juízo, e da dentada que deste neste pão barrado com ve­neno de puro colesterol, calorias e deliciosidade – disse, apontando com uma torrada barrada na direcção da boca do pai. É pegar ou largar.


George sorriu, abriu a boca e deu uma trinca, mastigando com prazer. As papilas gustativas deram cambalhotas de alegria, por cima dos saltos encarpados dos recepto­res olfactivos em festa. Deglutiu o pecado, sentindo-o des­cer pela garganta como uma pedra. Promoção de modos de vida dissidentes da Cultura Única, apoio a actividades económicas rebeldes, consumo de produtos não homologa­dos e permitidos pela Autoridade de Segurança Alimentar... A lista de contra-ordenações na dentada era extensa e, quanto mais pensasse nela, mais ela cresceria. Tentou es­pantar o pensamento. O que diria a sua mulher se o visse ali. Ela gostaria de ver a sua menina, mas certamente não toleraria nem um décimo do que Emily fizera e dissera até então. Seria por isso que ela decidira vir ter com ele a Sere­na, enquanto a mãe estava destacada noutra ponta da Ter­ra?


George passou com a mão pelo cabelo da filha e beijou-a na testa em despedida, despachando-se para os seus afazeres no Palácio da Justiça.


***

Como de costume nos edifícios estatais nas cidades da Aliança, o Palácio da Justiça destacava-se dos edifícios circundantes pela escala e estilo arquitectónico. Assemelhava-se a uma enorme pirâmide de mármore, metal e vi­dro, que invocava a pedra sobre a qual os pratos da balan­ça da justiça eram equilibrados. Apesar de ser o umbral de mais um dia de trabalho, onde a pressão era uma constan­te, a entrada do tribunal era um local que transmitia calma a George. Porém, naquele dia, o dispositivo de segurança montado destruía qualquer possibilidade de suscitar esse sentimento.


Os jardins em volta, comummente oásis de verdura e águas paradas, estavam agora esmagados sob as rodas gigantes dos tanques que a Aliança tinha trazido para proteger toda a operação de actualização dos servidores, trans­formados em canteiros de lama revolvida. O perímetro de segurança fora alargado até aos prédios residenciais mais próximos, sendo que no total fora necessário ao juiz mos­trar a identificação pelo menos três vezes antes de se sen­tar à secretária. E nem aí teve descanso, pois os militares tinham achado por bem libertar mais de uma centena de drones de vigilância, pouco maiores que mosquitos, para cobrir o interior do edifício.


As mudanças começaram finalmente, sem imprevistos, como seria de esperar de algo saído com o cunho da Aliança, ainda para mais com a organização directa dos serviços centrais. As chamadas choviam no gabinete de George, com pedidos de autorização e de supervisão. Cada vez que saía do escritório, o juiz controlava o impulso de enxotar os drones, ao mesmo tempo que enxotava os pensamentos acerca de Emily, tentando não trocar as duas acções. Nunca antes vira tantos soldados no Palácio da Justiça. O ambiente era tão automático que não se podia classificar como tenso, eram peças que deslizavam numa linha de montagem, em movimentos repetidos e exactos, cumprindo a sua função no momento certo. Só uma empre­gada de limpeza destoava daquele ambiente, sirigaitando aqui e ali, limpando de modo errante o corredor sem ligar à operação. Verdade fosse dita, notou o juiz, ninguém parecia notar nela também, senão ele. Por vezes a Aliança, pen­sou, no seu ímpeto de igualdade quase que se podia dizer que despersonalizava os cidadãos, equiparando-os como mais um transístor na grande máquina da sociedade, uma parte de um todo. Caso isso fosse verdade, o que ele não acreditava, sempre era melhor do que a conclusão incontornável que a alternativa de pensamento apontava: que existiam pessoas mais especiais que outras. E porém, ao olhar para a empregada de olhos verdes e andar gingão, George não podia deixar de pensar que havia nela algo de único. Como que se apercebendo dos pensamentos que lhe eram dirigidos, do fundo do corredor, ela olhou para George e piscou-lhe o olho, desaparecendo por uma das por­tas, deixando para trás apenas a sensação do seu sorriso matreiro, vagamente desconcertante.


George voltou para o gabinete, decidido a divagar menos e a concentrar-se mais nos afazeres, um conselho que a sua mulher várias vezes lhe fizera e ele teimava em não aplicar. Quando deu por si, o dia de trabalho já estava acabado. Não seriam feitas mais alterações nos arquivos. Era hora de testar se estava tudo operacional antes de se avançar para os arquivos mais sensíveis e casos mais complexos, acção essa que iria demorar o resto do dia e da noite.


O juiz saiu do Palácio da Justiça, repetindo todo o processo da tripla identificação nos vários pontos de controlo. O guarda bateu continência ao juiz, desejando-lhe um resto de bom dia, mas o olhar de George estava fincado do outro lado do passeio, onde Emily lhe acenava, com a outra mão pousada sobre a barriga. Vestia uma capa sóbria, de design clássico, própria de uma cidadã exemplar da Alian­ça, e o cabelo estava alinhado, sem nenhuma das aplica­ções de concha e metal corroídas pelo sal com que lhe aparecera em casa no dia anterior. Ali estava a sua Emily, a que desistira das ideias perigosas dos rebeldes e que volta­ra a casa. Sorriu por impulso, mesmo sabendo que a fanta­sia era irreal. Atravessou a rua e, sem perder a pose, ad­moestou a filha entredentes:

Que é que estás aqui a fazer? Estás a abusar da sorte, Emily Towers!

Tem calma – respondeu, com segurança. E a identificação no meu bolso diz que eu me chamo Charline, por isso nada de Emily enquanto estivermos na rua. George acenou afirmativamente. Com suavidade, Emily agar­rou-lhe a cara entre as mãos e disse: A parte difícil foi en­trar em Serena, e já cá estou, não estou? Cá dentro nin­guém anda à procura de “terroristas”, fica descansado, as pessoas só querem estar na sua vidinha. Eu sei o que es­tou a fazer, está bem? Para além disso, andar faz bem às grávidas.

Está bem, está bem, mas agora vamos para casa.

Tinha outra ideia em mente...

Emi...Charline!

Ok, ok, para casa, então – concedeu, apontando a direcção com a mão.

Pai e filha caminharam lado a lado, de braço dado e em silêncio. Atrás deles, o sol punha-se de mansinho, lançando tons de laranja e vermelho e sombras longas sobre a cidade. A maré alta e o vento do entardecer traziam o cheiro a maresia. Serena transmutava-se no seu nome, como se tivesse um relógio circadiano próprio. Só os elevadores espaciais nunca paravam, fosse que hora fosse. Emily olhava encantada em redor, como uma criança que é levada a um parque de diversões, distraída pelas lojas e luzes. Aqui e ali, George apontava-lhe os seus sítios favoritos e ela respondia-lhe com entusiasmo. Como parecia tudo tão simples. Realmente, noutra realidade, as coisas poderiam ter sido assim, cismava George. Se ao menos ele e a mulher tivessem passado mais tempo em casa quando Emily era pequena... Talvez a culpa fosse das amas que haviam contratado. Apesar dos testes psicológicos, do traçar do perfil cultural e das referências, uma delas podia ter ligações aos rebeldes... Não, a culpa tinha de ser desse tal Serralves, ele é que lhe desviara a filha! Mas como, se ela só o conhecera depois de sair de casa? Teria sido mesmo assim? Se calhar fora demasiado aberto na edu­cação da filha, pelo menos era disso que a mulher o acusava.

– Sabes o que é que isto me faz lembrar?

A cadeia de pensamento de George estilhaçou-se.

– Mmm? Desculpa? Não estava aqui.

– Estava a falar da arquitectura de Serena. Ou melhor, do estilo arquitectónico da Aliança. Cores pastel, can­tos arredondados, proporções muito balançadas, pormenores graciosos, motivos pouco complexos. É como se fosse uma enorme creche para adultos. – Riu-se baixinho. – Relaxem, deixem estar que a gente trata de tudo, não comam plasticina, nem metam os dedinhos na tomada.

George ergueu o sobrolho e olhou em volta.

– Que exagero, o Palácio da Justiça não é assim – contrapôs. – Depende do estilo do arquitecto que desenhou o edifício.

– Ora, o Palácio é o professor do jardim de infância! Agora a sério, olha lá bem para as fachadas da rua. Mesmo em termos de profundidade tem poucos planos, poucas intersecções. Dá um ar de cenário demasiado limpinho, asseado, planeado para a fotografia – disse, fazendo o gesto de uma moldura com as mãos, tentanto capturar a cena entre os polegares e os indicadores.

Um arrepio correu a espinha de Emily, assim que o pensamento se formou na sua mente. “Como se alguém andasse sempre a limpar tudo o que não encaixa. O que não está muito longe da verdade...” Decidiu não o partilhar com o pai. Já não lhe restavam muitos dias ali, não valia a pena estragá-los a provocá-lo. Sorriu e aninhou-se ao braço dele.

– Mas esquece, falemos de outra coisa.

– Ok... Ouviste falar daqueles colonos que enviaram para Plutão?

***


Quando a primeira explosão se deu, George e Emily estavam a meio do jantar. Não foi mais que um som distante e abafado, acompanhado pelo retinir da loiça dentro do armário, que vibrou em uníssono com todo o prédio e todo o quarteirão. O noticiário projectou-se automaticamente na parede da cozinha, mostrando uma coluna de fumo a ascender de uma das faces do Palácio da Justiça. Em rodapé, as autoridades aconselhavam os habitantes de Serena a permanecerem em casa até que a situação fi­casse regularizada. Uma segunda explosão, agora em dir­ecto, seguida por uma terceira, quarta e quinta, de menores dimensões, numa cadência de dois segundos entre cada uma. Os militares avançaram pirâmide adentro, sob os ol­hares atentos dos telespectadores. Os drones jornalísticos seguiam a equipa de assalto, captando a confusão desin­formativa do costume: imagens tremidas e desfocadas, ob­scurecidas pelo fumo e más condições de iluminação, gri­tos militares distorcidos, tanto digitalmente como pelo barulho envolvente, sem uma contextualização que pudesse ajudar a tirar alguma informação do que se via. No entanto, o que importava era o espetáculo e passar a ideia geral de eficiência e prontidão. Num quadrado relegado ao canto superior direito da imagem, o pivô do noticiário in­dicava que as explosões pareciam não ter feito vítimas, tendo-se dado em sectores vazios do Palácio. Ouviu-se uma troca de tiros. Serena suspendeu a respiração.


George olhou para o lado, para comentar algo com a filha, mas só encontrou uma cadeira vazia e um prato de sopa abandonado. Sem esperar, correu até à porta de saída da casa, mesmo a tempo de impedir Emily, já de sacola de viagem às costas, de a abrir.

– É que nem penses!

– Tenho de ir, desculpa. Aconteceu mais cedo do que estava à espera. Deixa-me sair senão perco a minha boleia.

– Tu não vais a sítio nenhum! – berrou. – Ainda por cima nesse estado – disse, apontando para a barriga.

Emily colocou a mão por cima da maçaneta da porta, olhou-o nos olhos e, calmamente, disse:

– Sai da frente, pai. Deixa-me sair.

– Não! Não te vou deixar voltar para aqueles selvagens. Não assim. Não nesta confusão. É este o mundo que queres para os teus filhos? Um mundo em que os humanos não se entendem pela teimosia de quererem sentir-se únicos e especiais? Orgulhosos por terem nascido num pedaço de terra aleatório, por coisas que não fizeram, por terem o melhor amigo mágico imaginário e pelo qual devem combater e morrer? Vê o que atingimos aqui em Serena e compara com as cidades que os Separatistas fundaram. Não me revires os olhos! Eu já fui supervisionar o desmantelamento de uma e, enquanto cá temos um sistema que recicla quase a totalidade dos resíduos produz­idos, lá nem sistemas sanitários de jeito tinham. Havia cri­anças a morrer de diarreia! De que doença evitável vão morrer os teus filhos?

Os olhos de Emily estavam semicerrados, duros como icebergues.

– Viverão e morrerão livres e, se tudo correr bem, mais cultos do que alguma vez nós seremos. Sem medo de institucionalização compulsória por não se adequarem a um modelo de cidadão esperado, ou expulsão para uma colónia prisional para baixar as estatísticas de criminalidade. Para além disso, se há crianças a morrer de diarreia nessa cidade, é porque não sobra tempo de fugir da Ali­ança para construir saneamento básico. És tu, e outros como tu, que matam essas crianças. Agora, sai da frente! Não volto a repetir.


Sem capacidade de reacção, esmagado pelo último pensamento, George viu a filha passar à sua frente e a sair. O coração caiu-lhe aos pés, assim que o som dos passos de Emily se desvaneceu nas escadas. O Palácio da Justiça estava agora cercado de tanques e holofotes. Os jornalistas e respectivos drones haviam sido afastados da zona, pelo que agora só acompanhavam a acção à distância, mas não com menos emoção. Nas ruas, as sirenes troavam, próximas demais. Na mente de George, apenas uma palavra se formava, como um grito desesperado: “Emily”. Que hipóteses tinha ela, a sua única filha, a sua menina, ainda por cima grávida e carregada, naquele caos?


Desceu as escadas a correr. À porta do prédio, um guarda armado fazia de segurança, como o protocolo exigia para todas as altas individualidades em caso de emergência. O cano da arma barrou-lhe o caminho, estendendo-se na horizontal, entre o juiz e a rua.

– Meretíssimo, não posso autorizá-lo a sair da sua residência.

Sem pensar nas consequências, fez a pergunta que lhe assaltava o espírito.

– Viu uma rapariga? Grávida?

– Não, meretíssimo juiz, quer que mande alguém procurar alguma?

– Não... Deixe estar, soldado. Estava só a garantir se não havia ninguém indefeso na rua numa situação como esta. Continue o bom trabalho.


Como um bom militar, bateu continência e não fez mais perguntas ao seu superior, que voltou para casa. O sentido de impotência corroía George, impelindo-o a andar aos círculos, para gastar a energia que se acumulava dentro de si. De outro modo, tinha a certeza que seria consumido. Tudo o que estava ao seu alcance fazer só chamaria a atenção sobre a conecção entre Emily e os rebeldes. Tinha de confiar na sua menina. Na mesma rapariga que ainda há uns anos atrás não andava de bicicleta sem rodas de apoio. Suspirou, esfregando a cara com violência. Estava encharcado de suor.


O pivô do noticiário anunciava as últimas notícias. O propósito do ataque estava revelado: abrir uma brecha na segurança informática de apenas dois minutos. O suficiente para descarregar milhares e milhares de dados dos processos judiciais armazenados nos servidores do Palácio da Justiça. Os engenheiros informáticos da Aliança estavam ainda a tentar calcular qual a quantidade de informação roubada, enquanto os analistas tentavam descortinar qual seria a utilização que os rebeldes lhes iriam dar. Ao que o Gabinete Central podia adiantar, era possível que eles ten­tassem obter informação para melhor planear futuros ataques terroristas às cidades da Aliança.


O juiz mergulhou a cabeça dentro da água fria do lavatório. Tinha de manter a calma. Emily conseguira chegar até ali e parecia ter a rota de fuga planeada, certamente iria conseguir escapar, repetia para si próprio, num mantra sem fim. Procurou no assistente digital um serviço de tarefas domésticas, agendando uma limpeza a fundo no apartamento para o dia a seguir. Seleccionou a opção “in­tervenção não-humana, apenas robôs de limpeza”. As má­quinas não faziam perguntas incómodas acerca de apliques capilares feitos de conchas e metal retorcido. Olhou em volta. Que mais podia fazer por Emily? Lembrou-se de mais uma coisa.


Na cozinha, barrou uma última torrada com o que restava da manteiga. Nunca na sua vida de juiz eliminar provas lhe soubera tão bem. Pelas memórias, pela doce transgressão, pela ironia. Saboreou cada trinca, materializando os momentos que passara com a filha, deixando as lágrimas correrem livremente pela cara. Ela estava bem, re­petia para si. As más notícias eram as primeiras a chegar. O assistente digital apitou. George quase que morreu de ansiedade, tremendo só de pensar no conteúdo da mensagem. Abriu-a. Por fim, descansou, era só correio in­terno, destinado aos juízes supervisores do processo de actualização dos servidores, a indicar o que realmente fora roubado pelos rebeldes.


Passou os olhos rapidamente pelas palavras, sem lhes tirar sentido. Só após a terceira leitura é que o cérebro decidiu trabalhar. O anunciado pelos jornalistas não correspondia ao que lia ali. Nada tinha a ver com informações ref­erentes às cidades actuais da Aliança. O ataque apenas visara os arquivos de provas de processos muito antigos, cuja maior parte dos envolvidos há muito já estavam mor­tos. Intrigado, George foi um pouco mais fundo e pesquisou pelos arquivos que haviam sido violados durante o ataque. Havia um padrão explícito, embora tal não fosse referido no comunicado interno. Todos os ficheiros copiados eram provas em processos judiciais abertos pelo tribunal especial instituído durante a criação da Aliança para julgar crimes de dissidência cultural. George copiou alguns dos processos, havia de os ler mais tarde, quando tivesse tempo. Nunca se debruçara a fundo sobre o periodo conturbado do pós-guerra, certamente seria fascinante. Agora o que o intrigava era porque haveriam de querer os rebeldes uma cópia das provas apresentadas em tribunal, mas não o processo em si. Só havia uma maneira de saber. Abriu o inventário, com a mesma sensação de formigueiro com que dera a dentada no pão com manteiga.


Canções, romances, filmes, contos, poesia, guiões, peças de teatro, pinturas, bandas desenhadas, jogos digitais, jogos de tabuleiro, tradições, rituais... A lista de itens culturais dissidentes parecia infinita, nenhum deles alinhado com o ideal da Aliança Humana. George desviou a cara, avassalado. Como poderiam os humanos construír um fu­turo em comum com tantas ideias diferentes a circular entre eles? A desunião era inevitável num cenário assim. Não lhe admirava que tudo aquilo tivesse sido destruído, pelo bem maior. As palavras de Emily surgiram-lhe na memória “...e, se tudo correr bem, mais cultos do que alguma vez nós seremos.” Fora um descuido fatal ter mantido uma cópia nos arquivos de provas do Palácio da Justiça. Quem po­deria prever que haveria um dia em que alguém se lem­braria de ir lá buscar esses ficheiros para os disseminar? Ninguém, pelo menos ninguém com um pensamento de cidadão da Aliança. Era um arquivo de provas, não uma biblioteca.

Foi tomar banho, sentia-se sujo.

Parou a meio do caminho para a casa de banho.

Apercebeu-se que também se sentia, de certa maneira, feliz.




Pesadelo a 40 anos luz


Ricardo Dias









Num sector do espaço onde literalmente o nosso sol não brilha, a quietude foi interrompida pelo aparecimento de uma nave, que se materializou, aparentemente vinda de lado nenhum...


Tratava-se de uma nave pahoehoente, convertida para uso humano e baptizada com um nome feminino muito simples, e considerado por muito como um dos mais belos.


Na ponte de comando da Maria estavam três mulheres, nenhuma delas sendo o que parecia.


A que estava no centro da ponte não era verdadeiramente uma mulher. Na realidade, era um homem a ocupar um corpo de uma. De seu nome Serralves, considerado por muitos um dos maiores heróis do nosso sistema solar, e por outros tantos, um dos maiores inimigos públicos. A sua mente, ou, se estivermos espiritualmente inclinados, a sua alma, ocupava o corpo de Sigrid, uma colega de armas que sacrificara a sua existência para que o herói de guerra pudesse perpetuar a sua luta. Normalmente, ele usaria um bigode à souvarov, mas na impossibilidade de o fazer, op­tou por cortar o cabelo louro bastante curto e pintá-lo de negro.


A segunda, a hacker Hannie, que estava sentada em frente ao terminal de acesso aos computadores centrais da nave, tinha talentos para lidar com máquinas muito mais extensos do que aparentava, que derivavam da sua natureza não humana que apenas o seu comandante conhecia.


A terceira mulher, sentada no lugar de piloto, era um elemento recente do grupo. Em tempos, não tão distantes como isso, fora uma inimiga jurada dos Separatistas. A sua compleição esguia e estatura baixa não deixavam transparecer, mas Helena Reiter fora uma assassina de um es­quadrão de elite de operacionais da Aliança aumentados geneticamente e com treino em múltiplas especialidades militares e de operações secretas.


Foi esta última que quebrou o silêncio.

– Comandante, completámos mais um salto – informou, no seu eterno tom neutro.

– Muito bem – respondeu Serralves – Hannie, por favor confirma a localização.

– A triangular... Hmm... – Hannie ficou parada, em silêncio, a olhar para os monitores.

– Sim? Então?

– Parece que não viemos parar ao sítio certo. Estamos a três sectores do local onde devíamos ter parado. Nada de transcendente, mas desviámo-nos da rota.

– Helena, colocaste bem as coordenadas?

– Estou certa que sim, Comandante.

– Confirma, por favor.

– Comandante, eu não me engano nessas coisas – com esta afirmação, Hannie revirou os olhos, não sem Serralves reparar. Não era fácil conciliar Reiter com os restantes membros da tripulação. A antiga membro das Adagas Carmesins desertara, e após pouco mais de um ano a tra­balhar como mercenária, aliara-se aos Separatistas. O seu conhecimento privilegiado do grupo de elite fora fulcral para os seus novos companheiros, permitindo-lhes caçar e elim­inar as Adagas de forma sistemática, até os manda-chuvas da Aliança resolverem dissolver o que restava do esquad­rão. Mesmo assim, não conseguira conquistar totalmente a confiança de muitos dos colegas.

– Sim, sabemos que és perfeita – respondeu a hacker – Devo ter sido eu que me enganei, então.

– Helena, verifica as coordenadas, se fazes favor – impôs-se o comandante, que estava sem paciência para quezílias.

– Muito bem. Aqui estão, na consola. Como pode verificar, são exactamente as coordenadas que a Hannie me deu. – De facto, eram. Como Serralves sabia que também a Hannie não se enganaria, decidiu que o problema estaria noutro sítio. Ligou pelo comunicador ao chefe dos mecâni­cos, Rowan.

– Rowan, é o Serralves.

– Boas, Comandante. Que posso fazer por ti? Não muito, espero, ainda estou meio enjoado com o salto – brincou o outro.

– Preciso que tu e os teus rapazes façam uns diagnósticos aos impulsores gravitacionais. Pelos vistos viemos parar ao lugar errado, e não foi problema da consola aqui, ao que parece.

– Palavra? Isso não é bom. OK, vamos já trat...zzz...ar... diss... Vamos ter que... ttzzz... o impul... zzzz... durante u... tzzzzz

– Rowan? Não te estou a apanhar. O que estavas a dizer?


Não conseguiu resposta, apenas estática.


Lindo, pensou. Primeiro damos um salto para o lado errado, e agora são os intercomunicadores a dar o berro. Bem, teria que tratar do assunto à moda antiga, ou seja, indo ter com o mecânico-chefe a pé. Na realidade nem se importava, os saltos com o impulsor gravitacional deixavam-no agoniado, mesmo respeitando o limite de segurança de três minutos por salto. Ia fazer-lhe bem esticar as pernas. Era engraçado como a gravidade artificial da nave produzia os mesmos problemas do artigo genuíno. Se não se pusesse a toques, ainda ia ficar com varizes nas suas belas pernas. Já achava mau o suficiente ter o período.

***

Abandonou a ponte e dirigiu-se à secção de engenharia. Quando atravessava o compartimento que servia de sala de refeições, encontrou Malleus, o ajudante mais novo de Rowan. Este praguejava como um carroceiro e martelava o sintetizador de comida com uma chave inglesa, de tal modo que o ruído fazia com que Serralves semicerrasse os olhos.

– Que porra é que estás a fazer? Passaste-te?

– Não, chefe, – respondeu o outro – é só que a porcaria do sintetizador está-me a servir um hambúrguer sem carne! Dá para acreditar?

– Estranho. É um Ramsay-Oliver 3000, topo de gama. A malta instalou-o mesmo antes da viagem. Não devia estar a dar problemas...

– Mas está. Se calhar algum engraçadinho andou a mexer-lhe só para me lixar. Provavelmente o velhote, ficou com ciúmes da máquina por lhe ter tirado as funções de cozinheiro.

Com isto, deu mais uma pancada no aparelho, que vibrou.

– Bater-lhe não adianta, Malleus.

– Quem falou em bater? – Sorriu, fazendo um ar que quase parecia de um garoto travesso. – Estou só a fazer um pequeno... ajuste percussional.

Serralves não resistiu a sorrir também com a piada. Respondeu, tentando manter um pouco a sua autoridade:

– Continua a fazer-lhe "ajustes percussionais" e daqui a pouco estás mesmo a comer os cozinhados do "velhote". Ou então enlatados de reserva. E sabes que bons que esses são. – Ficou a olhar para o rapaz, a ver o que ele respondia. Malleus era muito alto, e as intermináveis horas de ginásio davam-lhe um físico intimidante, o que aliado ao seu péssimo feitio, o tornavam talvez mais apto para serviço de guarda costas do que de mecânico. Na verdade, era um gajo útil para ter ao lado numa escaramuça. Embora, pensando bem, era muito provável que uma escaramuça em que Malleus participasse tivesse sido começada pelo próprio. Como o outro não disse nada, Serralves con­tinuou:

– De qualquer modo, vais ter de ir ajudar o Rowan, estamos com um problema qualquer no sistema de saltos.

– Para além de não podermos saltar mais de três minutos de cada vez? Esse é que é o verdadeiro problema. Com saltos de três minutos e intervalos de meia hora, pelo andar da carruagem, quando voltarmos para casa, a Aliança morreu de velha e não precisamos de lutar mais. Não bastava termos dado um ou dois saltos para testar o bendito gerador? Vamos longe como o caraças.

– Malleus, resmungar não altera o protocolo dos testes. Olha, fazemos assim, ligamos o gerador mais que três minutos seguidos, mas vais sozinho na nave.

– Pois, pois, Serralves. Já sei. Ficávamos fritos, liquefeitos, ou merda do género. Sabes que mais, isso para mim é treta. Não há gerador que afecte este corpinho, hã? Talvez aceite a tua proposta!


Serralves decidiu que não valia a pena continuar. Deixou o mecânico a praguejar com o sintetizador e continuou o seu caminho.


***


Enquanto se dirigia à secção de engenharia, Serralves não se apercebeu que, atrás de si, no corredor, algo se manifestava repentinamente. Se tivesse visto isso, apenas o poderia descrever como uma sombra sólida, amorfa, formada no meio do ar. A sombra alongou-se em direcção ao painel que controlava a iluminação do corredor e atravessou-o, fazendo-o zumbir enquanto as luzes tremiam. Segundos depois, a sombra desapareceu e as luzes normalizaram.


Serralves apenas olhou para as lâmpadas. Embora não tivesse visto o causador, já que não havia nada para ver naquele momento, apercebeu-se que seria mais uma avaria. Isto começava a ficar preocupante.


***


Rowan estava no compartimento que albergava o gerador de saltos gravitacionais, a verificar algumas leituras nos equipamentos, quando Serralves entrou. O mecânico tentou não olhar muito para o seu comandante. Desde que ele assumira o corpo feminino de Sigrid, sentia... bem, sentia coisas que não costumava sentir quando o seu amigo se apresentava como um homem. Aquilo confundia-o imenso. Tentou fazer de conta que não se passava nada relativamente a essa incómoda questão:

– Ah, cá estás tu. Deixei de te ouvir há um bocado, Serralves. O comunicador está a dar problemas?

– Parece que sim. Para além do que já te disse antes. Viemos parar ao lado do sítio a que era suposto chegarmos. O problema é que "ao lado", neste caso, são anos-luz de distância.

– Hmm, duas avarias seguidas. Será que estão relacionadas? Enquanto vinhas para aqui, fiquei a pensar se não será o gerador gravitacional a interferir. Não te esqueças que muitos dos nossos sistemas são tecnologia hu­mana que enxertamos aqui na nossa menina, e o gerador todo ele plissado de origem. Se calhar o sistema híbrido não está a aguentar o esforço.

– É possível. A propósito, passei pelo teu novo aprendiz e o tipo estava a degladiar-se com o sintetizador de comida, que resolveu torná-lo vegetariano à força.

– Hmm, aposto que está a dar porrada ao aparelho. Boa sorte com isso. Até lhe fazia bem comer menos proteínas, vai acabar com algum problema de saúde por causa do ácido úrico.

Serralves deu um risinho baixo. Duvidava que ácido úrico viesse a ser a causa da morte de Malleus. Questionou o mecânico:

– Ele é sempre assim? Quero dizer, não parece muito ser o género de tipo que tu deixas andar contigo a ver se aprende alguma coisa...


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